metamorfases

historietas orgânicas


1. A boca, cansada de dar à língua, mandou o pénis trabalhar.

2. «Modernices», murmurou uma orelha à outra quando soube do piercing no umbigo.

3. A perna exibia uma longa tatuagem de noite Versace.

4. Era inevitável que o pénis e a vagina se apaixonassem. Ambos existencialistas, partilhavam uma grande paixão pela língua.

5. «Quem anda à chuva molha-se», disseram os ossos à pele.

6. A retina, impressionada, viu as cataratas cristalinas.

7. Sempre que o coração sofria, o cotovelo tinha dores.

8. Nas noites de fim-de-semana a bexiga prepara-se psicologicamente para uma overdose de cerveja.

9. O cérebro comprara acções da clínica de oftalmologia. Os olhos viam E, mas ele informava €.

10. De vez em quando um dedo salvava as lágrimas do abismo.

11. Sempre que o pé marcava o compasso e os dedos estalavam, o coração sorria.

12. Depois dos espasmos musculares e dos gemidos desconexos, os pulmões prepararam-se para um banho de fumo.

13. Nas paredes do estômago só há quadros clínicos.

14. O dente jamais esqueceu o maxilar. Afinal, era lá que tinha as suas raízes.

15. O fígado devia estar bêbado quando pediu a mão à cirrose.

16. A tosse é os pulmões a discutirem com o ar.

17. Trocado pelo vibrador, o pénis mantinha-se vigorosamente em pé numa clara atitude de desafio. A verdade é que não se atrevia a virar-lhe as costas.

18. Os rins eram os maiores bandidos. Ninguém dava golpes como eles.

19. A mínima perturbação do sistema nervoso, os dentes tornavam-se os maiores inimigos das unhas.

20. A pele estendeu-se ao sol e ruboresceu de vaidade.

21. As pálpebras bem abertas confirmavam que os olhos se fecharam para sempre.

22. A droga era tão boa que o rim apanhou a pedra da sua vida.

23. Os dedos eram os melhores amigos do nariz, mas só quando ninguém olhava.

24. «Não há cu que me aguente», apregoava o pénis todo inchado.

25. O tecido epitelial apareceu ornamentado com padrões geométricos de borbulhas.

26. As costas descobriram à sua custa que depois das palmadinhas vinham as facadas.

27. O pénis gabava-se de conhecer centenas de bocas. «É muita garganta», comentou a mão.

28. Ex-músico do famoso Duodeno, o estômago integra agora a popular Banda Gástrica.

29. Um grito a plenos pulmões morreu estrangulado na garganta.

30. A bexiga, farta da urina, mandou-a para o caralho.

31. O intestino grosso é feliz por não ter nariz.

32. Mal a ferida chegou, o sangue correu para ela.

33. «Nunca se encontra um neurologista quando é preciso», desabafou o cérebro em curto-circuito.

34 O intestino delgado digere insultos como ninguém.

35. De tanto tentarem ver-se, os olhos acabaram estrábicos.

36. Apesar de tudo, o ânus tem um papel higiénico.

37. A boca parou quando descobriu que havia mais olhos que barriga.

38. Os músculos odiavam leite. Só o suportavam porque eram solidários com os ossos.

39. «Calões!», desabafou o cérebro quando percebeu que só ele ainda trabalhava.

40. Havia um rato escondido no buraco do estômago.

41. Quando os músculos transbordavam de energia, a cara sabia que a carícia seria uma chapada.

42. «O meu é maior que o teu», disse o estômago ao dente. Falavam de buracos.

43. Só com muita ginástica é que o calcanhar conseguia apanhar o rádio.

44. O esternocleidomastóideo é o mais cómico e cinéfilo dos músculos.

45. O dente, exibindo a coroa de ouro, vangloriava-se do seu sangue azul.

46. O sangue, farto do mesmo circuito de sempre, fez um desvio e nunca mais deu com o caminho de volta.

47. Quando aquele órgão era tocado, as cordas vocais tinham trabalho garantido.

48. A dentadura é uma galdéria. Sai à noite e só volta na manhã seguinte.

49. Invejosos do tamanho do fígado, os testículos tinham como máxima ambição uma cirrose.

50. Depois de instaurado o apartheid entre glóbulos brancos e vermelhos, foi o colapso do sistema.

51. Quando os músculos se esforçam, o baço torna-se burro.

52. Velocidade excessiva e falta de aderência fizeram os testículos estatelarem-se no rabo.

53. O coração era mole e fraco denotando uma ausência evidente de coluna vertebral.

54. A relação entre o pénis e a vagina anda atribulada. Alguns minutos juntos e está o caldo entornado.

55. Das papilas às pupilas vai uma mão-travessa.

56. A cabeça no ar invejava os pés bem assentes no chão.

57. O batom deslizava pelos lábios superiores e os inferiores roíam-se de inveja.

58. Após insuficiência cardíaca, foi preciso fazer das tripas coração.

59. O cérebro comanda os membros com mão de ferro.

60. O passatempo da mão era usar as linhas para unir pontos negros.

61. «Nem só de mamilos vive a língua», assegurou a vagina feliz.

62. Quando circula em artérias estreitas, o sangue arrisca-se a provocar acidentes.

63. As pernas tremeram e os joelhos bateram com a violência do sopro no coração.

64. Nada irrita mais o esófago do que amígdalas atravessadas na garganta.

65. Quando sentia fome, o pénis tinha cinco dedos à mão de semear.

66. A boca não suportava ser cega enquanto os olhos comiam.

67. Aquele fedor vinha dos pulmões. Água não era com eles.

68. A garganta e as mãos disputavam o coração entre si, mas ele não queria cair-lhes aos pés.

69. Enquanto as unhas coçavam o escroto, o cu roçava-se pelas paredes.

70. Quando o sangue vai brincar com a urina, acabam ambos num tubo de ensaio.

71. As glândulas salivares não se lembravam do que segregar e estava mesmo ali debaixo da língua.

72. As costas da mão e a barriga das pernas sentiam-se autênticas aberrações.

73. Cândida a vida inteira, a vagina não aguentava mais tanta comichão.

74. Os olhos não aprendem a ver se as pupilas não estudarem.

75. A mão na anca enfatizava o bater do pé.

76. «O nariz é um ranhoso», revelou a boca babosa.

77. A glande viu o clítoris e mijou-se de riso.

78. Os gânglios eram poetas excepcionais. «A linfa inspira-nos», explicaram.

79. «O cuzinho é um descanso», confirmou a coluna vertebral.

80. As glândulas eram racistas e acérrimas defensoras da segregação.

81. «Se o útero optar pelo diafragma, nada nos segura», gritaram os pulmões.

82. Na masturbação a mão leva a palma a qualquer um.

83. «Os intestinos dão-me cá umas fezes», queixava-se o recto.

84. A caminho de um seio, os lábios apaixonaram-se pelo pescoço.

85. Os abdominais eram uns relaxados. Para eles, ir ao ginásio era um soco no estômago.

86. «Grande coisa!» responderam as pernas ao útero quando souberam dos gémeos.

87. Pé ante pé, o braço e o antebraço lá se articularam.

88. Quando o coração se abriu ficou sem pinga de sangue.

89. Por alguma razão estranha, o ombro adorava que chorassem nele.

90. A outra perna olhava a prótese com um misto de desconfiança e admiração.

91. O estômago tinha uma paixão visceral por tripas.

92. A língua soltou-se e mentiu com quantos dentes tinha na boca.

93. A face estuda Medicina. É zarolha, mas tem um bom olho clínico.

94. Exausta, a vagina adormeceu no colo do útero.

95. O cotovelo desistiu e delegou na mão a tarefa de esfregar o olho.

96. A pele morreu e deixou o músculo em carne viva.

97. Nada ofendia mais os ossos do que chamarem-lhes cartilagem.

98. No couro cabeludo, os piolhos faziam bonecos de neve com a caspa.

99. A púbis mudou radicalmente de visual. Rapou-se e os chatos deixaram de a importunar.

100. Até as costelas flutuantes se afogaram no edema pulmonar.

101. Quando a testa a ferver mandou a boca calar o bico, esta desconfiou que a gripe das aves tinha chegado.

102. O ânus tenciona implantar um olho de vidro à prova de hemorróidas.

103. Os lábios da boca da cabeça confraternizavam em ângulo recto com os lábios da boca do corpo.

104. O punho tem a mania de transfigurar os olhos de qualquer cor em olhos negros.

105. A coxa queria mudar de sexo e bastou-lhe um implante de alguns centímetros para o resultado ser um coxo.

106. «Adoro sexo oral», dizia o pénis à boca cheia.

107. Os tímpanos não se entendiam. Um preferia o canto da boca e o outro, o canto do olho.

108. A dor era tanta que o dente se ajoelhou e ergueu as mãos para o céu-da-boca.

109. Quando o coração chora, verte lágrimas de sangue.

110. O que unia a garganta, as tripas e os dedos eram os nós entre eles.

111. A mão à frente tinha um dedo que adivinhava o que fazia a outra atrás.

112. Quando o estômago abria a boca, às vezes era um vómito.

113. O som do martelo na bigorna era música para os ouvidos.

114. O cabelo cresceu e mandou a caspa para trás das costas.

115. O coração é uma máquina, mas há coisas que resultam melhor à mão.

116. O cotovelo invejava as cordas vocais pela sua fantástica articulação de palavras.

117. As papilas divertiam-se a dar amargos de boca ao estômago.

118. «O que é preciso é descontracção», afirmaram os músculos na sua estupidez natural.

119. A boca falava ao coração com o coração ao pé da boca.

120. O olho não conseguiu ficar em bico sozinho.

121. Os reflexos do joelho eram responsáveis pela ponta do pé no cu.

122. Por mais que o coração tentasse ignorar o cérebro, este não lhe saía da cabeça.

123. Quando o olho do cu quer ler o jornal, geralmente vai cagar.

124. O peito era tão sensível que tinha um coração de oiro.

125. Depois da fractura, o fémur passou a andar ao pé-coxinho.

126. Às vezes, o diafragma e a glote comunicam aos soluços.

127. Apesar de não correspondida, a acne não abdicou da paixão sebácea que nutria pela pele.

128. Os cabelos, ambicionando uma vida mais aconchegada, migraram da cabeça para o peito.

129. A tíbia vivia desesperada entre um joelho perro e um pé chato.

130. O coração deixou de sentir mas, felizmente, os olhos abriram-se a tempo.

131. O queixo caiu quando viu o que custavam os olhos da cara.

132. Os ouvidos não gostavam de silêncio, mas só o diziam à boca calada.

133. «Vocês matam-me do coração», disse o cérebro às coronárias.

134. O pénis rejubilou ao descobrir que aqueles lábios não escondiam dentes.

135. Como já devem ter percebido, o corpo tem costas largas.