metamorfases

Sat 06-05-2006

à beira-rio

Um rio acordou a madrugada
que no meu peito andava há muito presa,
e num caudal de assombro e de braveza
arrebatou-me a alma enlameada.

Um rio transbordou a barricada
que me tornava forte na fraqueza,
desorientou as leis da Natureza
e eu deixei de ser água parada.

Agrilhoei-me à força dessas águas
que souberam lavar-me antigas mágoas
e acalentar-me enfim o corpo frio…

Mas é nessa corrente que me solto.
Sou, desde que te bebo, mar revolto,
e tu, que me sacias, o meu rio.

26 de Outubro de 2004

publicado por fgs @ 02:28
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Fri 07-04-2006

naufrágio

Já cavalguei o dorso das marés
mastigando intempéries uma a uma,
sofri tanto mar alto no convés
mas nunca vacilei em rota alguma.

Tantas viagens no ventre das galés
a circum-navegar terras de bruma,
que até Neptuno, exausto, a meus pés
sucumbiu, sufocado em negra escuma.

Sobrevivi aos perigos mil dos mares:
abismos e mostrengos seculares,
tempestades de sal, sonhos de areia…

Mas por mais que soubesse ler os astros
e me amarrasse aos mais robustos mastros,
naufraguei no teu canto de sereia.

(13 de Novembro de 2004)

publicado por fgs @ 00:42
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Thu 30-03-2006

soneto da cumplicidade

Sempre me resguardei de toda a gente
mostrando apenas parte do meu rosto,
mas somente para ti foi transparente
que me ardia no peito um fogo posto.

Anseio a tua alma confidente
para ser no meu caminho o meu encosto,
o raio telepático, demente,
que me ateie um inverno em pleno Agosto.

Por teres na voz a força das raízes
que se agarram à vida que transbordas,
tropeço nas palavras que me dizes…

Recordas-me de mim quando me acordas,
esqueço serenamente as cicatrizes
e espero, impaciente, que me mordas.

(8 de Outubro de 2004)

publicado por fgs @ 00:59
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Tue 21-03-2006

mulher-pássaro

Galgando o meu mais alto parapeito
pousaste nos meus sonhos, tão serena,
e eu, ser desasado e imperfeito,
esqueci nas tuas asas minha pena.

Construíste o teu ninho no meu peito
tornando a minha noite mais amena
e rasaste o meu corpo em voo perfeito,
ó Pássaro de Fogo, ó Papagena.

Mas és também a ave de rapina
que me golpeia a carne e me alucina
deixando-me exaurir até à morte…

E é morto de paixão que acordo mudo
no lume desse canto em que me escudo,
porque eu não sei cantar, nem sei o norte.

 

No Dia Mundial da Poesia, um soneto escrito há exactamente um ano com algumas referências musicais, já que Música e Poesia têm ambas os mesmos pais: o ritmo e a alma.

Informação: aceitam-se piadas sobre a gripe das aves.

publicado por fgs @ 00:57
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Thu 16-03-2006

no tempo dos sorrisos

No tempo em que sorrias devagar,
havia tempo. E como tu sorrias
quando eu só existia para te dar
o tempo que em sorrisos me trazias.

Sorrias lentamente e navegar
no teu sorriso é que era o sal dos dias
no tempo em que eu vivia para roubar
os sorrisos sem tempo que oferecias.

Mas esse tempo foi-se e um outro veio,
sem vagar para sorrisos demorados
nos lábios em que o tempo descansava.

O tempo dos sorrisos foi tão cheio
que transbordaram todos, derramados
no tempo em que sorrias e eu parava…

(18 de Novembro de 2004)

publicado por fgs @ 08:39
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Sat 11-03-2006

soneto dos silêncios

És de palavras mudas. És de olhares
profundos como as noites de Janeiro.
Nos teus olhos de estrelas singulares
cintila a luz dum universo inteiro.

Ah, esses olhos! Mundos invulgares
que bebo a cada toque, a cada cheiro…
Só nesse olhar imenso escuto mares
misteriosos à espera de um veleiro.

Que importa que não fales, se o sabor
de inventar sons para as teias que me teces
me impregna com a força das raízes?

És de silêncios mágicos, amor…
Por dentro do olhar que tu me ofereces
há todas as palavras que não dizes.

(26 de Janeiro de 2006)

publicado por fgs @ 02:15
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Fri 03-03-2006

soneto do indefinível

… manhã… sonho… poema… vida… chão… amigo… flor… canteiro… liberdade… melancolia… febre… dor… canção… beleza… fantasia… mar… saudade… angústia… ferida… carne… coração… desejo… insónia… sexo… tempestade… calor… oásis… vida… sol… vulcão… medo… loucura… fé… cumplicidade…

Tantas palavras gastas para nada!
Tantos passos perdidos na jornada deste pérfido vício que não domo.

Ai de mim, condenado ao pior martírio: viver emaranhado no delírio de querer dizer Amor sem saber como…

publicado por fgs @ 04:03
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Wed 22-02-2006

40

vinte e cinco mais doze menos sete
menos treze mais cento e vinte e seis
mais dezoito mais mil e dezassete
a dividir por (nove menos seis)

mais duas vezes cento e dezassete
mais catorze ao quadrado menos seis
mais dois ao cubo vezes trinta e sete
menos setenta vezes dezasseis

mais co-seno de (pi vezes cem mil)
menos cem mais setenta sobre dois
mais logaritmo base dez de mil

menos a derivada de três xis
mais zero vezes cento e trinta e dois
mais um somado à conta que deus fez

(22 de Fevereiro de 2006)

publicado por fgs @ 02:41
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Fri 13-01-2006

soneto espancado

ah não
ser poeta não é ser mais alto
não é amar-te assim perdidamente
não é um coração em sobressalto
gritando um desamor a toda a gente

não é ter a coragem de ir em frente
varando duras fragas de basalto
não é ambicionar ser a semente
da erva que germina em chão de asfalto

ser poeta é ser inteiro
e respirar
emaranhado em vícios
que não dormem
é ter dúvidas firmes
medo insano

é peidar-se e arrotar
e vomitar
quando as vísceras fervem
no abdómen
sim
ser poeta é apenas
ser humano

(20 de Novembro de 2004, um dia muito especial para alguém)

publicado por fgs @ 00:13
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Tue 10-01-2006

sabedoria

eu sei que há ignorância em toda a parte
que há muitos bichos que só comem fruta
também sei que há para aí filhos da puta
que juram ter um grande bacamarte

sei que entre a terra e júpiter está marte
e que atrás duma porta não se escuta
sei que o amor é uma força bruta
e que ninguém está livre de um enfarte

sei que depois da vida vem a morte
(mesmo para quem nasceu de cu para a lua)
sei que há quem acredite que tem sorte

sei que há hipocrisia no natal
mas sempre que te vejo linda nua
sei que tudo o que sei de nada vale

(30 de Dezembro de 2004)

publicado por fgs @ 00:19
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