à beira-rio
Um rio acordou a madrugada
que no meu peito andava há muito presa,
e num caudal de assombro e de braveza
arrebatou-me a alma enlameada.
Um rio transbordou a barricada
que me tornava forte na fraqueza,
desorientou as leis da Natureza
e eu deixei de ser água parada.
Agrilhoei-me à força dessas águas
que souberam lavar-me antigas mágoas
e acalentar-me enfim o corpo frio…
Mas é nessa corrente que me solto.
Sou, desde que te bebo, mar revolto,
e tu, que me sacias, o meu rio.
26 de Outubro de 2004
Fri 07-04-2006
naufrágio
Já cavalguei o dorso das marés
mastigando intempéries uma a uma,
sofri tanto mar alto no convés
mas nunca vacilei em rota alguma.
Tantas viagens no ventre das galés
a circum-navegar terras de bruma,
que até Neptuno, exausto, a meus pés
sucumbiu, sufocado em negra escuma.
Sobrevivi aos perigos mil dos mares:
abismos e mostrengos seculares,
tempestades de sal, sonhos de areia…
Mas por mais que soubesse ler os astros
e me amarrasse aos mais robustos mastros,
naufraguei no teu canto de sereia.
(13 de Novembro de 2004)
Thu 30-03-2006
soneto da cumplicidade
Sempre me resguardei de toda a gente
mostrando apenas parte do meu rosto,
mas somente para ti foi transparente
que me ardia no peito um fogo posto.
Anseio a tua alma confidente
para ser no meu caminho o meu encosto,
o raio telepático, demente,
que me ateie um inverno em pleno Agosto.
Por teres na voz a força das raízes
que se agarram à vida que transbordas,
tropeço nas palavras que me dizes…
Recordas-me de mim quando me acordas,
esqueço serenamente as cicatrizes
e espero, impaciente, que me mordas.
(8 de Outubro de 2004)
Tue 21-03-2006
mulher-pássaro
Galgando o meu mais alto parapeito
pousaste nos meus sonhos, tão serena,
e eu, ser desasado e imperfeito,
esqueci nas tuas asas minha pena.
Construíste o teu ninho no meu peito
tornando a minha noite mais amena
e rasaste o meu corpo em voo perfeito,
ó Pássaro de Fogo, ó Papagena.
Mas és também a ave de rapina
que me golpeia a carne e me alucina
deixando-me exaurir até à morte…
E é morto de paixão que acordo mudo
no lume desse canto em que me escudo,
porque eu não sei cantar, nem sei o norte.
No Dia Mundial da Poesia, um soneto escrito há exactamente um ano com algumas referências musicais, já que Música e Poesia têm ambas os mesmos pais: o ritmo e a alma.
Informação: aceitam-se piadas sobre a gripe das aves.
Thu 16-03-2006
no tempo dos sorrisos
No tempo em que sorrias devagar,
havia tempo. E como tu sorrias
quando eu só existia para te dar
o tempo que em sorrisos me trazias.
Sorrias lentamente e navegar
no teu sorriso é que era o sal dos dias
no tempo em que eu vivia para roubar
os sorrisos sem tempo que oferecias.
Mas esse tempo foi-se e um outro veio,
sem vagar para sorrisos demorados
nos lábios em que o tempo descansava.
O tempo dos sorrisos foi tão cheio
que transbordaram todos, derramados
no tempo em que sorrias e eu parava…
(18 de Novembro de 2004)
Sat 11-03-2006
soneto dos silêncios
És de palavras mudas. És de olhares
profundos como as noites de Janeiro.
Nos teus olhos de estrelas singulares
cintila a luz dum universo inteiro.
Ah, esses olhos! Mundos invulgares
que bebo a cada toque, a cada cheiro…
Só nesse olhar imenso escuto mares
misteriosos à espera de um veleiro.
Que importa que não fales, se o sabor
de inventar sons para as teias que me teces
me impregna com a força das raízes?
És de silêncios mágicos, amor…
Por dentro do olhar que tu me ofereces
há todas as palavras que não dizes.
(26 de Janeiro de 2006)
Fri 03-03-2006
soneto do indefinível
… manhã… sonho… poema… vida… chão… amigo… flor… canteiro… liberdade… melancolia… febre… dor… canção… beleza… fantasia… mar… saudade… angústia… ferida… carne… coração… desejo… insónia… sexo… tempestade… calor… oásis… vida… sol… vulcão… medo… loucura… fé… cumplicidade…
Tantas palavras gastas para nada!
Tantos passos perdidos na jornada deste pérfido vício que não domo.
Ai de mim, condenado ao pior martírio: viver emaranhado no delírio de querer dizer Amor sem saber como…
Wed 22-02-2006
40
vinte e cinco mais doze menos sete
menos treze mais cento e vinte e seis
mais dezoito mais mil e dezassete
a dividir por (nove menos seis)
mais duas vezes cento e dezassete
mais catorze ao quadrado menos seis
mais dois ao cubo vezes trinta e sete
menos setenta vezes dezasseis
mais co-seno de (pi vezes cem mil)
menos cem mais setenta sobre dois
mais logaritmo base dez de mil
menos a derivada de três xis
mais zero vezes cento e trinta e dois
mais um somado à conta que deus fez
(22 de Fevereiro de 2006)
Fri 13-01-2006
soneto espancado
ah não
ser poeta não é ser mais alto
não é amar-te assim perdidamente
não é um coração em sobressalto
gritando um desamor a toda a gente
não é ter a coragem de ir em frente
varando duras fragas de basalto
não é ambicionar ser a semente
da erva que germina em chão de asfalto
ser poeta é ser inteiro
e respirar
emaranhado em vícios
que não dormem
é ter dúvidas firmes
medo insano
é peidar-se e arrotar
e vomitar
quando as vísceras fervem
no abdómen
sim
ser poeta é apenas
ser humano
(20 de Novembro de 2004, um dia muito especial para alguém)
Tue 10-01-2006
sabedoria
eu sei que há ignorância em toda a parte
que há muitos bichos que só comem fruta
também sei que há para aí filhos da puta
que juram ter um grande bacamarte
sei que entre a terra e júpiter está marte
e que atrás duma porta não se escuta
sei que o amor é uma força bruta
e que ninguém está livre de um enfarte
sei que depois da vida vem a morte
(mesmo para quem nasceu de cu para a lua)
sei que há quem acredite que tem sorte
sei que há hipocrisia no natal
mas sempre que te vejo linda nua
sei que tudo o que sei de nada vale
(30 de Dezembro de 2004)
