historietas orgânicas III
21
As pálpebras bem abertas confirmavam que os olhos se fecharam para sempre.
22
A droga era tão boa que o rim apanhou a pedra da sua vida.
23
Os dedos eram os melhores amigos do nariz, mas só quando ninguém olhava.
24
«Não há cu que me aguente», apregoava o pénis todo inchado.
25
O tecido epitelial apareceu ornamentado com padrões geométricos de borbulhas.
26
As costas descobriram à sua custa que depois das palmadinhas vinham as facadas.
27
O pénis gabava-se de conhecer centenas de bocas. «É muita garganta», comentou a mão.
28
Ex-músico do famoso Duodeno, o estômago integra agora a popular Banda Gástrica.
29
Um grito a plenos pulmões morreu estrangulado na garganta.
30
A bexiga, farta da urina, mandou-a para o caralho.
Sun 23-04-2006
historietas orgânicas II
11
Sempre que o pé marcava o compasso e os dedos estalavam, o coração sorria.
12
Depois dos espasmos musculares e dos gemidos desconexos, os pulmões prepararam-se para um banho de fumo.
13
Nas paredes do estômago só há quadros clínicos.
14
O dente jamais esqueceu o maxilar. Afinal, era lá que tinha as suas raízes.
15
O fígado devia estar bêbado quando pediu a mão à cirrose.
16
A tosse é os pulmões a discutirem com o ar.
17
Trocado pelo vibrador, o pénis mantinha-se vigorosamente em pé numa clara atitude de desafio. A verdade é que não se atrevia a virar-lhe as costas.
18
Os rins eram os maiores bandidos. Ninguém dava golpes como eles.
19
À mínima perturbação do sistema nervoso, os dentes tornavam-se os maiores inimigos das unhas.
20
A pele estendeu-se ao sol e ruboresceu de vaidade.
Sat 22-04-2006
historietas orgânicas I
1
A boca, cansada de dar à língua, mandou o pénis trabalhar.
2
«Modernices», murmurou uma orelha à outra quando soube do piercing no umbigo.
3
A perna exibia uma longa tatuagem de noite Versace.
4
Era inevitável que o pénis e a vagina se apaixonassem. Ambos existencialistas, partilhavam uma grande paixão pela língua.
5
«Quem anda à chuva molha-se», disseram os ossos à pele.
6
A retina, impressionada, viu as cataratas cristalinas.
7
Sempre que o coração sofria, o cotovelo tinha dores.
8
Nas noites de fim-de-semana a bexiga prepara-se psicologicamente para uma overdose de cerveja.
9
O cérebro comprara acções da clínica de oftalmologia. Os olhos viam E, mas ele informava €.
10
De vez em quando um dedo salvava as lágrimas do abismo.
