metamorfases

Sat 06-05-2006

historietas orgânicas III

21
As pálpebras bem abertas confirmavam que os olhos se fecharam para sempre.

22
A droga era tão boa que o rim apanhou a pedra da sua vida.

23
Os dedos eram os melhores amigos do nariz, mas só quando ninguém olhava.

24
«Não há cu que me aguente», apregoava o pénis todo inchado.

25
O tecido epitelial apareceu ornamentado com padrões geométricos de borbulhas.

26
As costas descobriram à sua custa que depois das palmadinhas vinham as facadas.

27
O pénis gabava-se de conhecer centenas de bocas. «É muita garganta», comentou a mão.

28
Ex-músico do famoso Duodeno, o estômago integra agora a popular Banda Gástrica.

29
Um grito a plenos pulmões morreu estrangulado na garganta.

30
A bexiga, farta da urina, mandou-a para o caralho.

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publicado por fgs @ 03:23
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Fri 28-04-2006

modernices

Era especialista em duas coisas: sexo online e teclar com uma só mão.

publicado por fgs @ 00:17
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sete vidas

À oitava tentativa de suicídio, o gato duvidou da sabedoria popular.

publicado por fgs @ 00:12
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Mon 24-04-2006

da omnipotência

Deus, chorando desalmadamente, confessou que já não aguenta o peso do seu próprio nome.

publicado por fgs @ 00:22
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ser poeta é ser mais alto

Escreveu o verso mais comprido de sempre e pô-lo na vertical.

publicado por fgs @ 00:17
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Sun 23-04-2006

historietas orgânicas II

11
Sempre que o pé marcava o compasso e os dedos estalavam, o coração sorria.

12
Depois dos espasmos musculares e dos gemidos desconexos, os pulmões prepararam-se para um banho de fumo.

13
Nas paredes do estômago só há quadros clínicos.

14
O dente jamais esqueceu o maxilar. Afinal, era lá que tinha as suas raízes.

15
O fígado devia estar bêbado quando pediu a mão à cirrose.

16
A tosse é os pulmões a discutirem com o ar.

17
Trocado pelo vibrador, o pénis mantinha-se vigorosamente em pé numa clara atitude de desafio. A verdade é que não se atrevia a virar-lhe as costas.

18
Os rins eram os maiores bandidos. Ninguém dava golpes como eles.

19
À mínima perturbação do sistema nervoso, os dentes tornavam-se os maiores inimigos das unhas.

20
A pele estendeu-se ao sol e ruboresceu de vaidade.

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publicado por fgs @ 16:19
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Sat 22-04-2006

historietas orgânicas I

1
A boca, cansada de dar à língua, mandou o pénis trabalhar.

2
«Modernices», murmurou uma orelha à outra quando soube do piercing no umbigo.

3
A perna exibia uma longa tatuagem de noite Versace.

4
Era inevitável que o pénis e a vagina se apaixonassem. Ambos existencialistas, partilhavam uma grande paixão pela língua.

5
«Quem anda à chuva molha-se», disseram os ossos à pele.

6
A retina, impressionada, viu as cataratas cristalinas.

7
Sempre que o coração sofria, o cotovelo tinha dores.

8
Nas noites de fim-de-semana a bexiga prepara-se psicologicamente para uma overdose de cerveja.

9
O cérebro comprara acções da clínica de oftalmologia. Os olhos viam E, mas ele informava €.

10
De vez em quando um dedo salvava as lágrimas do abismo.

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publicado por fgs @ 20:30
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Tue 18-04-2006

pontamão

Sempre que se enervava trocava os pés pelas mãos. Felizmente, o nervoso durava pouco e desaparecia da mão para o pé.

publicado por fgs @ 01:33
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Mon 17-04-2006

voo picado

«Sonhar dá-nos asas», filosofou a meio da fatídica queda.

publicado por fgs @ 23:07
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vantagens de ser rico

Quando a Morte lhe bateu à porta mandou o mordomo dizer que não estava.

publicado por fgs @ 23:01
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Wed 12-04-2006

torradeira

Ele queimou-se antes de saltar fora. Sexo tórrido entre um pão e uma brasa só podia mesmo acabar assim.

publicado por fgs @ 01:39
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Fri 07-04-2006

cinzeiro

Desenhava mapas de cinza e apagava os cigarros nos locais que sonhava visitar.

publicado por fgs @ 01:03
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visita divina

Numa noite da semana passada, entre dois sonos, entreabri os olhos e dei de caras com Deus sentado aos pés da cama. Um sorriso meigo abria-lhe a face enrugada, e os longos cabelos brancos estendiam-se num manto reluzente sobre o edredão.
Para entabular conversa teci um tosco comentário de circunstância sobre o tempo e perguntei-lhe a idade.
– Ó rapaz… São tantos anos que já nem sei! – Respondeu displicentemente sem se aperceber da evidente negação do dom da omnisciência.
Cavaqueámos de seguida sobre assuntos mais triviais: as últimas tendências da moda para querubins, o pavor que o Espírito Santo tem da gripe das aves, as aparições da mãe do seu filho e o novo estilo de mobiliário celeste que, segundo o meu ilustre visitante, parece não favorecer a cadeira à direita da sua. Depois o sono reapoderou-se de mim e entre dois bocejos ainda ouvi a voz cava garantir-me que me tornaria em breve multimilionário, só porque eu sou «um tipo que merece isso e muito mais» (sic). Adormeci ao som duma ladainha numérica que, descobri no fim-de-semana seguinte, mais não era do que uma divina injecção subliminar da chave do euromilhões.
E é por isso que hoje sou mais rico do que nunca. Apesar do meu ateísmo e de não jogar por questões de princípio, Deus continua a acreditar em mim.

publicado por fgs @ 00:55
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problema de comunicação

O homem que assentou o último tijolo na Torre de Babel não conseguiu falar a língua que Deus lhe destinou porque era mudo. Conhecessem os outros a linguagem gestual e teriam acabado a obra.


(Escrito a duas cabeças. A primeira frase é minha, a última é do Luís)

publicado por fgs @ 00:34
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Wed 05-04-2006

física onírica

Sonhou com buracos negros. Acordou, pegou numa pá e foi procurar antimatéria no quintal.

publicado por fgs @ 01:47
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dilema moral

Quando descobriram a sua poligamia e o proibiram de ter mais do que uma mulher, deparou-se com o maior dilema da sua vida. Sempre fora moralmente contra o divórcio.

publicado por fgs @ 01:41
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gritos

Escreveu todas as palavras que tinha ganas de gritar. As páginas ensurdeceram.

publicado por fgs @ 01:37
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Tue 04-04-2006

mais olhos que barriga

Devorou o livro, apesar da história sem sal.

publicado por fgs @ 12:39
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ambições

Não queria muito da vida. Queria tudo.

publicado por fgs @ 12:37
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dimensões

Vida era a palavra maior que conhecia, até encontrar a Morte.

publicado por fgs @ 12:30
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troca-tintas

Gostava de tinto e bebia verde. Adorava Cesário Verde e lia Guimarães Rosa. Apaixonou-se por Rosa e casou-se com Violeta…
O daltonismo tem destas coisas. Até jura que tem sangue azul.

publicado por fgs @ 12:24
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Sun 02-04-2006

reflexo

Olhou-se ao espelho e viu um cego.

publicado por fgs @ 06:35
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a mudança da hora

Atrasou o relógio mas continuou a envelhecer ao mesmo ritmo de sempre.

publicado por fgs @ 06:35
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Thu 30-03-2006

triângulo amoroso

Terminou hoje o julgamento da hipotenusa acusada de bigamia com dois catetos. Sentenciada a uma exemplar pena de prisão, verá o sol nascer aos quadradinhos durante muitos meses. Todavia, o tribunal não se revelou tão obtuso com os dois cúmplices devido, sobretudo, ao testemunho abonatório do senhor Euclides, o qual provou haver entre eles uma rectidão inquestionável. Esta testemunha – num dos mais notáveis momentos duma sessão inesquecível – demonstrou ainda que é sempre possível observar por mais do que um ângulo uma relação deste tipo, e terá sido a sua análise a principal responsável pela simples multa a que foram condenados.
Depois de decretar a sentença o juiz exortou os prevaricadores a recomeçarem com verticalidade uma nova vida como simples segmentos de recta e a esquecerem de vez o tempo em que se divertiam licenciosamente com um teorema do senhor Pitágoras, a principal testemunha de acusação.

publicado por fgs @ 01:07
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Tue 28-03-2006

micro-conto soberbo

A presunção também ataca os micro-contos. Este, por exemplo, considera-se aristocrata só porque tem um título.

publicado por fgs @ 02:14
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amantes calados

Cultivam o silêncio para saborearem as palavras que ficam por dizer.

publicado por fgs @ 02:07
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Sat 25-03-2006

os malefícios da cirurgia estética

O cirurgião tirara-lhe uns bons vinte anos da cara após três liftings, cinco peelings, uma rinoplastia, duas blefaroplastias, duas vibroliposucções à papada e dois implantes – um, capilar, outro, de silicone no queixo. Enfim, três semanas de internamento, mascarado de múmia e alimentado por uma palhinha, que lhe mudariam a vida para sempre.
O primeiro sobressalto sentiu-o quando regressou da clínica e o seu pastor alemão, não o reconhecendo, o atacou ferozmente quase lhe esfacelando a nova face. Mas o pior estava para vir. Sentia-se tão diferente que se tornou insuportável a naturalidade com que a sua mulher se deitava com outro homem, ainda por cima, com a idade do seu filho. Começou a sentir-se traído por ele mesmo e entrou em profunda depressão. O pavor de poder vir a ser referido pela vizinhança como “o corno de si próprio” causava-lhe tanto sofrimento, que o simples acto de calcorrear dez metros de calçada para despejar o lixo o atulhava de vómitos e diarreias.
Em consequência dos incontáveis distúrbios somáticos os pontos relaxaram, os repuxões vacilaram, a pele estremeceu e a cabeça distendeu-se para uma vez e meia o tamanho original. Partiu todos os espelhos de casa e nunca mais saiu. Embrulhou-se num desespero crónico e viciou-se em debates televisivos. Viveu o resto dos seus dias na cama, irreconhecível, de telecomando na mão, balbuciando frases desconexas de Luís Delgado, Pacheco Pereira, Odete Santos e Fernando Rosas.
Lastimável.

publicado por fgs @ 02:32
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Thu 23-03-2006

desvoos

para a Gisela

Era um homem tão despassarado que perdera até as asas da imaginação.

publicado por fgs @ 17:56
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capacidade

Olhava, inebriada, o copo vazio, muito mais cheio do que ela.

publicado por fgs @ 17:48
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Wed 22-03-2006

romantismos

Depois de um repousante banho de espuma, Narciso vestiu um roupão confortável, acendeu languidamente as velas dispostas sobre a mesa, abriu a sua melhor garrafa de vinho e saboreou, solitário, o mais fantástico jantar romântico da sua vida.

publicado por fgs @ 20:24
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trompas

Naquela orquestra, os músicos em mais perfeita harmonia com os seus instrumentos eram os trompistas Falópio e Eustáquio.

publicado por fgs @ 00:56
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dia gnóstico

Ontem descobriu que depois de morto não sente a sua falta.

publicado por fgs @ 00:47
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Tue 21-03-2006

encontro anual

O Inverno e a Primavera encontraram-se há poucos minutos, como fazem todos os anos desde tempos imemoriais, para a habitual passagem de testemunho. Nesses curtos encontros é costume cantarem, dançarem, contarem piadas, brincarem, enfim, divertirem-se.
Desta vez, porém, o Inverno chegou cabisbaixo sem grandes desejos de diversão. As poucas palavras que dirigiu à sua colega, foram sussurradas quase a medo:
– É necessário passarmos a ter muito cuidado nestas reuniões ou ainda acabam connosco. O Outono contou-me, da última vez que nos vimos, que o chefe está cada vez pior e a tornar-se um autêntico ditador.
– O chefe? O nosso chefe? O tempo?!
– Shiuuu! Fala baixo! – Murmurou o Inverno, lançando um olhar desconfiado em volta. – Sim… Consta que o tempo está cada vez menos dado a brincadeiras.

publicado por fgs @ 00:37
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self made sex

para a Meg ;)

Conheceram-se num bar das redondezas duas horas antes. Na curta conversa, entre vodkas e uísques velhos de malte, ela sentiu-se irremediavelmente atraída pelo modo cativante como ele falava da vida difícil que tivera. Havia subido o pau de sebo da existência com a persistência de quem quer muito mais do que o bacalhau dependurado no topo.
Ela sempre ansiara secretamente deitar-se com um self made man. Excitava-a a virilidade inerente à obstinação em vencer na vida, o vigor natural dum homem que se criou a si mesmo e que torna seu o mundo à sua volta, e não hesitou. Inebriada pelo desejo lúbrico que lhe queimava o ventre e quase a fazia desfalecer, ali estava no quarto dele, de gatas, sentindo-o pujante e prestes a explodir dentro de si.
Ele agarrou-a com firmeza pelas ancas, sacudiu-a violentamente e, enquanto se consumia nela, gritou o seu próprio nome com a força telúrica que lhe vinha das entranhas.
Ela compreendeu então que um self made man, além de se ter feito a si próprio, só adora o seu criador.

publicado por fgs @ 00:21
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Mon 20-03-2006

honestidade

O político era tão honesto que nem em si próprio votava. Conhecia-se o suficiente para saber que não tinha qualquer competência para os cargos a que se candidatava.

publicado por fgs @ 17:25
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retrato

para o ognid

A fotografia que mais se destacava na exposição colectiva era o retrato de uma mulher com uma expressão amena e profunda no rosto. O nariz, bem delineado, fazia a ligação perfeita entre os olhos – dois poços negros, penetrantes de ternura – e os lábios subtilmente entreabertos ansiando uma gota de desejo que os humedecesse. Uma brisa fresca, que quase podia tocar-se, soprava-lhe os longos cabelos ruivos, mesclados de ocres e vermelhos corrosivos que irrompiam, impetuosos, em labaredas inusitadas na direcção do observador. Ao fundo, verdes tranquilos em dois terços de harmonia, delineavam-lhe o pescoço esguio e delicado.
Admiradores e colegas rodearam o fotógrafo, tentando extrair-lhe o segredo do irrepreensível equilíbrio de cores e formas de tão fantástica imagem, mas ele, esquivo, escudado na hábil timidez dos grandes artistas, nada respondeu.
Naquela mesma noite, pousou a estatueta do primeiro prémio sobre a cómoda, deitou-se ao lado da mulher retratada e desabafou:
– Todos pensaram em técnicas, edições, truques, eu sei lá… Mas o segredo, meu amor, o segredo é tão simples. Afinal, nada mais faço do que purificar com o filtro da alma a luz que me cega.
E, de olhos bem abertos, beijou-a.

publicado por fgs @ 00:22
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Sun 19-03-2006

uma história do diabo

Entrevado para mais de vinte anos, o homem levantou-se e andou. Foi até à varanda, aspirou profundamente a aragem matinal e sentiu-se desmedidamente feliz. Trinta segundos depois, ao ajoelhar-se para agradecer ao santo da sua devoção, escorregou e não sobreviveu ao encontro fortuito da sua fronte com a quina do psiché.
O santo, em conferência de imprensa convocada para o fim da tarde do dia seguinte, confirmou a autoria do milagre. Todavia, desmentiu categoricamente os rumores de negligência, responsável – segundo a generalidade da comunicação social – pela morte do infeliz, e repudiou com veemência as acusações de crueldade por ter esperado tanto tempo para curar um homem que ele sabia ser-lhe de uma fidelidade inexcedível. Visivelmente enfurecido, esclareceu ainda que o seu profissionalismo jamais poderia ser posto em causa pelo simples facto de haver coisas do diabo.

publicado por fgs @ 01:21
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paladar

Só depois de lamber o livro que lhe ofereceram é que ele – cego, surdo e mudo de nascença – percebeu tratar-se duma história de mau gosto.

publicado por fgs @ 01:15
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Sat 18-03-2006

a morte da relatividade

Ao descobrir a sua incapacidade de matar o espaço, o físico começou a matar o tempo.

publicado por fgs @ 00:57
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nome ilusório

No dia em que lhe diagnosticaram só mais uns meses de vida, Perpétua deixou de confiar em dicionários.

publicado por fgs @ 00:53
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