metamorfases

Fri 07-04-2006

cinzeiro

Desenhava mapas de cinza e apagava os cigarros nos locais que sonhava visitar.

publicado por fgs @ 01:03
na(s) fase(s) canto do microconto

visita divina

Numa noite da semana passada, entre dois sonos, entreabri os olhos e dei de caras com Deus sentado aos pés da cama. Um sorriso meigo abria-lhe a face enrugada, e os longos cabelos brancos estendiam-se num manto reluzente sobre o edredão.
Para entabular conversa teci um tosco comentário de circunstância sobre o tempo e perguntei-lhe a idade.
– Ó rapaz… São tantos anos que já nem sei! – Respondeu displicentemente sem se aperceber da evidente negação do dom da omnisciência.
Cavaqueámos de seguida sobre assuntos mais triviais: as últimas tendências da moda para querubins, o pavor que o Espírito Santo tem da gripe das aves, as aparições da mãe do seu filho e o novo estilo de mobiliário celeste que, segundo o meu ilustre visitante, parece não favorecer a cadeira à direita da sua. Depois o sono reapoderou-se de mim e entre dois bocejos ainda ouvi a voz cava garantir-me que me tornaria em breve multimilionário, só porque eu sou «um tipo que merece isso e muito mais» (sic). Adormeci ao som duma ladainha numérica que, descobri no fim-de-semana seguinte, mais não era do que uma divina injecção subliminar da chave do euromilhões.
E é por isso que hoje sou mais rico do que nunca. Apesar do meu ateísmo e de não jogar por questões de princípio, Deus continua a acreditar em mim.

publicado por fgs @ 00:55
na(s) fase(s) canto do microconto

naufrágio

Já cavalguei o dorso das marés
mastigando intempéries uma a uma,
sofri tanto mar alto no convés
mas nunca vacilei em rota alguma.

Tantas viagens no ventre das galés
a circum-navegar terras de bruma,
que até Neptuno, exausto, a meus pés
sucumbiu, sufocado em negra escuma.

Sobrevivi aos perigos mil dos mares:
abismos e mostrengos seculares,
tempestades de sal, sonhos de areia…

Mas por mais que soubesse ler os astros
e me amarrasse aos mais robustos mastros,
naufraguei no teu canto de sereia.

(13 de Novembro de 2004)

publicado por fgs @ 00:42
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, sonetices

problema de comunicação

O homem que assentou o último tijolo na Torre de Babel não conseguiu falar a língua que Deus lhe destinou porque era mudo. Conhecessem os outros a linguagem gestual e teriam acabado a obra.


(Escrito a duas cabeças. A primeira frase é minha, a última é do Luís)

publicado por fgs @ 00:34
na(s) fase(s) canto do microconto