um olhar passado
Sempre que ergue a cabeça aquele olhar fita-o fixamente. Há muitos anos que tem na secretária a fotografia dela exibindo um sorriso copioso e uns olhos vermelhos que lhe recordam o tempo em que fora feliz e ainda não havia Photoshop.
imprevistos da vida
Há três dias, no fim da homilia, o pároco ergueu os braços bem abertos, olhou para o alto e sentenciou:
– São insondáveis, os desígnios do Senhor…
Ao baixar a cabeça o seu olhar cruzou-se com o dum belo rapaz moreno sentado na quarta fila. Sentiu um frémito avassalador percorrer-lhe o corpo e, quase sem se dar conta, mandou-lhe um sinal mudo com os olhos.
Encontraram-se poucos minutos depois na sacristia, entregaram-se desvairados ao prazer carnal e vivem agora todos em união de facto: o rapaz, o pároco e os desígnios insondáveis do Senhor.
