metamorfases

Thu 30-03-2006

triângulo amoroso

Terminou hoje o julgamento da hipotenusa acusada de bigamia com dois catetos. Sentenciada a uma exemplar pena de prisão, verá o sol nascer aos quadradinhos durante muitos meses. Todavia, o tribunal não se revelou tão obtuso com os dois cúmplices devido, sobretudo, ao testemunho abonatório do senhor Euclides, o qual provou haver entre eles uma rectidão inquestionável. Esta testemunha – num dos mais notáveis momentos duma sessão inesquecível – demonstrou ainda que é sempre possível observar por mais do que um ângulo uma relação deste tipo, e terá sido a sua análise a principal responsável pela simples multa a que foram condenados.
Depois de decretar a sentença o juiz exortou os prevaricadores a recomeçarem com verticalidade uma nova vida como simples segmentos de recta e a esquecerem de vez o tempo em que se divertiam licenciosamente com um teorema do senhor Pitágoras, a principal testemunha de acusação.

publicado por fgs @ 01:07
na(s) fase(s) canto do microconto

soneto da cumplicidade

Sempre me resguardei de toda a gente
mostrando apenas parte do meu rosto,
mas somente para ti foi transparente
que me ardia no peito um fogo posto.

Anseio a tua alma confidente
para ser no meu caminho o meu encosto,
o raio telepático, demente,
que me ateie um inverno em pleno Agosto.

Por teres na voz a força das raízes
que se agarram à vida que transbordas,
tropeço nas palavras que me dizes…

Recordas-me de mim quando me acordas,
esqueço serenamente as cicatrizes
e espero, impaciente, que me mordas.

(8 de Outubro de 2004)

publicado por fgs @ 00:59
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, sonetices

Tue 28-03-2006

micro-conto soberbo

A presunção também ataca os micro-contos. Este, por exemplo, considera-se aristocrata só porque tem um título.

publicado por fgs @ 02:14
na(s) fase(s) canto do microconto

amantes calados

Cultivam o silêncio para saborearem as palavras que ficam por dizer.

publicado por fgs @ 02:07
na(s) fase(s) canto do microconto

Sat 25-03-2006

os malefícios da cirurgia estética

O cirurgião tirara-lhe uns bons vinte anos da cara após três liftings, cinco peelings, uma rinoplastia, duas blefaroplastias, duas vibroliposucções à papada e dois implantes – um, capilar, outro, de silicone no queixo. Enfim, três semanas de internamento, mascarado de múmia e alimentado por uma palhinha, que lhe mudariam a vida para sempre.
O primeiro sobressalto sentiu-o quando regressou da clínica e o seu pastor alemão, não o reconhecendo, o atacou ferozmente quase lhe esfacelando a nova face. Mas o pior estava para vir. Sentia-se tão diferente que se tornou insuportável a naturalidade com que a sua mulher se deitava com outro homem, ainda por cima, com a idade do seu filho. Começou a sentir-se traído por ele mesmo e entrou em profunda depressão. O pavor de poder vir a ser referido pela vizinhança como “o corno de si próprio” causava-lhe tanto sofrimento, que o simples acto de calcorrear dez metros de calçada para despejar o lixo o atulhava de vómitos e diarreias.
Em consequência dos incontáveis distúrbios somáticos os pontos relaxaram, os repuxões vacilaram, a pele estremeceu e a cabeça distendeu-se para uma vez e meia o tamanho original. Partiu todos os espelhos de casa e nunca mais saiu. Embrulhou-se num desespero crónico e viciou-se em debates televisivos. Viveu o resto dos seus dias na cama, irreconhecível, de telecomando na mão, balbuciando frases desconexas de Luís Delgado, Pacheco Pereira, Odete Santos e Fernando Rosas.
Lastimável.

publicado por fgs @ 02:32
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Thu 23-03-2006

desvoos

para a Gisela

Era um homem tão despassarado que perdera até as asas da imaginação.

publicado por fgs @ 17:56
na(s) fase(s) canto do microconto

capacidade

Olhava, inebriada, o copo vazio, muito mais cheio do que ela.

publicado por fgs @ 17:48
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Wed 22-03-2006

romantismos

Depois de um repousante banho de espuma, Narciso vestiu um roupão confortável, acendeu languidamente as velas dispostas sobre a mesa, abriu a sua melhor garrafa de vinho e saboreou, solitário, o mais fantástico jantar romântico da sua vida.

publicado por fgs @ 20:24
na(s) fase(s) canto do microconto

trompas

Naquela orquestra, os músicos em mais perfeita harmonia com os seus instrumentos eram os trompistas Falópio e Eustáquio.

publicado por fgs @ 00:56
na(s) fase(s) canto do microconto

dia gnóstico

Ontem descobriu que depois de morto não sente a sua falta.

publicado por fgs @ 00:47
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Tue 21-03-2006

mulher-pássaro

Galgando o meu mais alto parapeito
pousaste nos meus sonhos, tão serena,
e eu, ser desasado e imperfeito,
esqueci nas tuas asas minha pena.

Construíste o teu ninho no meu peito
tornando a minha noite mais amena
e rasaste o meu corpo em voo perfeito,
ó Pássaro de Fogo, ó Papagena.

Mas és também a ave de rapina
que me golpeia a carne e me alucina
deixando-me exaurir até à morte…

E é morto de paixão que acordo mudo
no lume desse canto em que me escudo,
porque eu não sei cantar, nem sei o norte.

 

No Dia Mundial da Poesia, um soneto escrito há exactamente um ano com algumas referências musicais, já que Música e Poesia têm ambas os mesmos pais: o ritmo e a alma.

Informação: aceitam-se piadas sobre a gripe das aves.

publicado por fgs @ 00:57
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, sonetices

encontro anual

O Inverno e a Primavera encontraram-se há poucos minutos, como fazem todos os anos desde tempos imemoriais, para a habitual passagem de testemunho. Nesses curtos encontros é costume cantarem, dançarem, contarem piadas, brincarem, enfim, divertirem-se.
Desta vez, porém, o Inverno chegou cabisbaixo sem grandes desejos de diversão. As poucas palavras que dirigiu à sua colega, foram sussurradas quase a medo:
– É necessário passarmos a ter muito cuidado nestas reuniões ou ainda acabam connosco. O Outono contou-me, da última vez que nos vimos, que o chefe está cada vez pior e a tornar-se um autêntico ditador.
– O chefe? O nosso chefe? O tempo?!
– Shiuuu! Fala baixo! – Murmurou o Inverno, lançando um olhar desconfiado em volta. – Sim… Consta que o tempo está cada vez menos dado a brincadeiras.

publicado por fgs @ 00:37
na(s) fase(s) canto do microconto

self made sex

para a Meg ;)

Conheceram-se num bar das redondezas duas horas antes. Na curta conversa, entre vodkas e uísques velhos de malte, ela sentiu-se irremediavelmente atraída pelo modo cativante como ele falava da vida difícil que tivera. Havia subido o pau de sebo da existência com a persistência de quem quer muito mais do que o bacalhau dependurado no topo.
Ela sempre ansiara secretamente deitar-se com um self made man. Excitava-a a virilidade inerente à obstinação em vencer na vida, o vigor natural dum homem que se criou a si mesmo e que torna seu o mundo à sua volta, e não hesitou. Inebriada pelo desejo lúbrico que lhe queimava o ventre e quase a fazia desfalecer, ali estava no quarto dele, de gatas, sentindo-o pujante e prestes a explodir dentro de si.
Ele agarrou-a com firmeza pelas ancas, sacudiu-a violentamente e, enquanto se consumia nela, gritou o seu próprio nome com a força telúrica que lhe vinha das entranhas.
Ela compreendeu então que um self made man, além de se ter feito a si próprio, só adora o seu criador.

publicado por fgs @ 00:21
na(s) fase(s) canto do microconto

Mon 20-03-2006

honestidade

O político era tão honesto que nem em si próprio votava. Conhecia-se o suficiente para saber que não tinha qualquer competência para os cargos a que se candidatava.

publicado por fgs @ 17:25
na(s) fase(s) canto do microconto

retrato

para o ognid

A fotografia que mais se destacava na exposição colectiva era o retrato de uma mulher com uma expressão amena e profunda no rosto. O nariz, bem delineado, fazia a ligação perfeita entre os olhos – dois poços negros, penetrantes de ternura – e os lábios subtilmente entreabertos ansiando uma gota de desejo que os humedecesse. Uma brisa fresca, que quase podia tocar-se, soprava-lhe os longos cabelos ruivos, mesclados de ocres e vermelhos corrosivos que irrompiam, impetuosos, em labaredas inusitadas na direcção do observador. Ao fundo, verdes tranquilos em dois terços de harmonia, delineavam-lhe o pescoço esguio e delicado.
Admiradores e colegas rodearam o fotógrafo, tentando extrair-lhe o segredo do irrepreensível equilíbrio de cores e formas de tão fantástica imagem, mas ele, esquivo, escudado na hábil timidez dos grandes artistas, nada respondeu.
Naquela mesma noite, pousou a estatueta do primeiro prémio sobre a cómoda, deitou-se ao lado da mulher retratada e desabafou:
– Todos pensaram em técnicas, edições, truques, eu sei lá… Mas o segredo, meu amor, o segredo é tão simples. Afinal, nada mais faço do que purificar com o filtro da alma a luz que me cega.
E, de olhos bem abertos, beijou-a.

publicado por fgs @ 00:22
na(s) fase(s) canto do microconto

Sun 19-03-2006

uma história do diabo

Entrevado para mais de vinte anos, o homem levantou-se e andou. Foi até à varanda, aspirou profundamente a aragem matinal e sentiu-se desmedidamente feliz. Trinta segundos depois, ao ajoelhar-se para agradecer ao santo da sua devoção, escorregou e não sobreviveu ao encontro fortuito da sua fronte com a quina do psiché.
O santo, em conferência de imprensa convocada para o fim da tarde do dia seguinte, confirmou a autoria do milagre. Todavia, desmentiu categoricamente os rumores de negligência, responsável – segundo a generalidade da comunicação social – pela morte do infeliz, e repudiou com veemência as acusações de crueldade por ter esperado tanto tempo para curar um homem que ele sabia ser-lhe de uma fidelidade inexcedível. Visivelmente enfurecido, esclareceu ainda que o seu profissionalismo jamais poderia ser posto em causa pelo simples facto de haver coisas do diabo.

publicado por fgs @ 01:21
na(s) fase(s) canto do microconto

paladar

Só depois de lamber o livro que lhe ofereceram é que ele – cego, surdo e mudo de nascença – percebeu tratar-se duma história de mau gosto.

publicado por fgs @ 01:15
na(s) fase(s) canto do microconto

Sat 18-03-2006

a morte da relatividade

Ao descobrir a sua incapacidade de matar o espaço, o físico começou a matar o tempo.

publicado por fgs @ 00:57
na(s) fase(s) canto do microconto

nome ilusório

No dia em que lhe diagnosticaram só mais uns meses de vida, Perpétua deixou de confiar em dicionários.

publicado por fgs @ 00:53
na(s) fase(s) canto do microconto

Thu 16-03-2006

profissão de risco

Por força da profissão, há muito que se habituou a olhar de frente a miséria e a morte. Funcionário numa repartição de finanças, chega a casa há mais de quinze anos sempre a tempo e horas de as encarar no telejornal, entre uma garfada de arroz e um gole de cerveja.

publicado por fgs @ 08:43
na(s) fase(s) canto do microconto

no tempo dos sorrisos

No tempo em que sorrias devagar,
havia tempo. E como tu sorrias
quando eu só existia para te dar
o tempo que em sorrisos me trazias.

Sorrias lentamente e navegar
no teu sorriso é que era o sal dos dias
no tempo em que eu vivia para roubar
os sorrisos sem tempo que oferecias.

Mas esse tempo foi-se e um outro veio,
sem vagar para sorrisos demorados
nos lábios em que o tempo descansava.

O tempo dos sorrisos foi tão cheio
que transbordaram todos, derramados
no tempo em que sorrias e eu parava…

(18 de Novembro de 2004)

publicado por fgs @ 08:39
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, sonetices

Wed 15-03-2006

suicídio

Quando se arrependeu já estava morto.

publicado por fgs @ 17:15
na(s) fase(s) canto do microconto

três sílabas

De ti só quero três sílabas. Três sílabas de orvalho translúcido em madrugadas de corpos exaustos e tapetes de peles gastas de desejo. Três sílabas de caravelas impregnadas de rotas por inventar, atestadas de brisas cintilantes. Três sílabas de fomes saciadas, noite após noite, até nascer o dia tumultuoso. Três sílabas esculpidas no ventre das palavras pela cor amarga dos olhares desgarrados. Três sílabas caiadas na pedra gélida dos medos inauditos. Três sílabas que não se apaguem sob a luz curvilínea da liberdade. Três sílabas de cidade, de aurora, de oásis, de vulcão…
De ti só quero três sílabas, porque qualquer número de sílabas que me dês terá apenas três sílabas de universo, três sílabas que nada dizem separadas, mas que, juntas, dizem só o que fica por dizer.
De ti, poeta, só quero três sílabas: po-e-ma.

publicado por fgs @ 17:07
na(s) fase(s) que é que isto interessa?

Tue 14-03-2006

por falar em poesia

para o Henrique


Parte do tecto da Capela Sistina, Vaticano. Frescos de Michelangelo Buonarroti.
foto por fgs (17-08-2004)

Está meio tremida, mas estava um segurança a berrar-me em italiano que era proibido fotografar, e isso desconcentra qualquer um. A seguir mostrei-lha e ele gostou.
Desse dia, lembro-me de ter apanhado um torcicolo no pescoço e também de ter pensado: agora já posso morrer!

publicado por fgs @ 04:14
na(s) fase(s) fotografismos

ecumenismo

Desde sempre que o fundamentalista islâmico sabia da blasfémia que era a representação gráfica de Alá, mas só quando descobriu que Deus e Alá eram duas designações para uma mesma entidade, se arrependeu profundamente de se ter extasiado com a visita à Capela Sistina e de não ter, ali mesmo, morto o autor dos frescos no tecto.

publicado por fgs @ 04:10
na(s) fase(s) canto do microconto

Sun 12-03-2006

fraqueza

Tinha acabado de engolir o último pedaço de toucinho dum sublime cozido à portuguesa quando se lembrou de que era vegetariano militante. Ah, como a carne é fraca…

publicado por fgs @ 00:36
na(s) fase(s) canto do microconto

exercício físico

A vida corria-lhe bem, mesmo quando se sentava a descansar.

publicado por fgs @ 00:31
na(s) fase(s) canto do microconto

paixão blogosférica

Ela chegou ao blogue dele por acaso e elogiou-lhe a escrita escorreita e cativante. Há quanto tempo não lia nada assim… Ele retribuiu a visita e deixou sinceros aplausos aos textos dela. Poucos dias passados, já só deixavam frases curtas impregnadas de sorrisos e piscadelas abundantes. A admiração e a cumplicidade cresciam lado a lado com o vício das visitas recíprocas várias vezes ao dia. Já se hiperligavam mútua e frequentemente em poemas – de amor, a maior parte – quando ele se decidiu a mandar-lhe aquele email.
Ambos casados e desiludidos com os respectivos casamentos, combinaram um café ao fim da tarde – ele de blusão verde-escuro, ela com um gancho em forma de borboleta – e, mal os olhares se cruzaram, souberam imediatamente que tinham sido feitos um para o outro. Após nove anos de vida em comum, haviam-se redescoberto.

publicado por fgs @ 00:24
na(s) fase(s) canto do microconto

Sat 11-03-2006

claustrofobia

Os locais exíguos causavam-lhe tanto terror que morria de medo da morte.

publicado por fgs @ 02:26
na(s) fase(s) canto do microconto

da harmonia

Nem viverem sob o mesmo tecto os unia mais do que as suas frequentes e violentas discussões.

publicado por fgs @ 02:23
na(s) fase(s) canto do microconto

soneto dos silêncios

És de palavras mudas. És de olhares
profundos como as noites de Janeiro.
Nos teus olhos de estrelas singulares
cintila a luz dum universo inteiro.

Ah, esses olhos! Mundos invulgares
que bebo a cada toque, a cada cheiro…
Só nesse olhar imenso escuto mares
misteriosos à espera de um veleiro.

Que importa que não fales, se o sabor
de inventar sons para as teias que me teces
me impregna com a força das raízes?

És de silêncios mágicos, amor…
Por dentro do olhar que tu me ofereces
há todas as palavras que não dizes.

(26 de Janeiro de 2006)

publicado por fgs @ 02:15
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, sonetices

Fri 10-03-2006

gramática viva

Odeio sujeitos sem predicados, verbalizou o complemento directo.

publicado por fgs @ 02:31
na(s) fase(s) canto do microconto

desgosto

Planeou morrer de amor, mas a Eutanásia não quis nada com ele.

publicado por fgs @ 02:28
na(s) fase(s) canto do microconto

retratos do trabalho em lisboa, portugal


Comentadores políticos profissionais num programa televisivo sobre problemas clássicos da geometria grega.

publicado por fgs @ 02:25
na(s) fase(s) abruptamente no inverno passado

Thu 09-03-2006

pesadelo

Quando interrogado sobre o desaire da sua equipa, o futebolista respondeu:
– A verdade é que não lográmos contornar o posicionamento táctico adversário. É, pois, da mais elementar justiça exaltar a capacidade de os nossos oponentes levarem avante o obstinado intento de não se deixarem sobrepujar neste encontro e, ainda, de enaltecer o magnificente empenho da equipa de arbitragem, que em nada contribuiu para o revés que sofremos, o que só patenteia…
Não me lembro do resto. Acordei em pânico, sobressaltado, empapado em suor, mas ainda a tempo de ouvir que os sócios hadem preceber qu’a gente nos esforçámos bastante…
Que alívio! Felizmente, o mundo continuava normal.

publicado por fgs @ 00:13
na(s) fase(s) canto do microconto

Wed 08-03-2006

do mal, o menos

Subiu os degraus da glória, não deixando pedra sobre pedra. A fazer fé nas suas palavras, solucionava os problemas da melhor maneira possível e recebia calorosos aplausos por isso. Sempre fizera das tripas coração para encerrar com chave de ouro uma conversa séria. Às vezes, o seu semblante carregado de silêncio sepulcral apenas mostrava que sabia bem como pôr os pontos nos ii e, como tal, tinham-no na mais alta estima.
Apaixonara-se perdidamente, uns anos antes, por uma notável artista com quem viria a casar: uma mulher fatal com lábios de mel, dentes de pérola, cabelos negros como a noite e alma transbordante. Viveriam um amor inesquecível, viajando por todos os cantos do mundo, para inveja da esmagadora maioria dos seus amigos.
No mês passado encontrei este grande homem sob um sol quente. Dei-lhe os parabéns e desejei-lhe sinceros votos de feliz natal. Subitamente, começou a contorcer-se com dores, chorando copiosamente – uma vergonha para quem se tinha fartado de encher os bolsos e não andava com as mãos a abanar. Perguntei-lhe o que tinha, mas, com a voz embargada pela emoção, disse-me apenas que seria agora ou nunca.
Ontem tive uma amarga decepção quando soube do seu triste fim. Matou-se com um tiro nos miolos sob o luar prateado, deixando uma viúva inconsolável. Num pedaço de papel escrevera: «Eu, que sempre odiei coisas vulgares, descobri que a minha vida está recheada de lugares-comuns

publicado por fgs @ 23:57
na(s) fase(s) canto do microconto

equívocos gramaticais

Os mal-entendidos futebolísticos começam logo na escolha errada duma preposição: não se joga contra, joga-se com.

publicado por fgs @ 00:45
na(s) fase(s) penso rápido

números redondos

Ele bem queria pintar o sete, mas caiu ao fazer o quatro e ficou feito num oito.

publicado por fgs @ 00:36
na(s) fase(s) canto do microconto

retratos do trabalho na califórnia, eua


Ballet de Oakland.

publicado por fgs @ 00:32
na(s) fase(s) abruptamente no inverno passado

Tue 07-03-2006

um olhar passado

Sempre que ergue a cabeça aquele olhar fita-o fixamente. Há muitos anos que tem na secretária a fotografia dela exibindo um sorriso copioso e uns olhos vermelhos que lhe recordam o tempo em que fora feliz e ainda não havia Photoshop.

publicado por fgs @ 02:24
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