metamorfases

Tue 28-02-2006

excesso de poesia

Ia todos os dias à biblioteca e todos os dias era o primeiro a chegar. Pedia um livro de poesia e sentava-se de frente para a entrada, lendo e fantasiando. Sempre que a porta se abria, descolava disfarçadamente os olhos dum poema e observava quem entrava. Andou nisto anos a fio, entre versos, rimas e sonhos, procurando a mulher da sua vida.
No dia em que a encontrou, perdeu-a poucos minutos depois. Na realidade, não teve prosa para ela.

publicado por fgs @ 01:24
na(s) fase(s) canto do microconto

ora abóboras

Parou o carro numa noite de desejos lúbricos num aboboral deserto. Com um canivete abriu um orifício de cinco centímetros de diâmetro numa abóbora, agarrou-a com firmeza e penetrou-a. Tão absorto se encontrava na libidinosa satisfação que nem deu pela viatura policial que rondava e o surpreendeu em flagrante.
Inicialmente acusado de atentado ao pudor e destruição de propriedade alheia, rapidamente se veria envolvido num crime de pedofilia que haveria de destroçar-lhe a vida. As investigações revelariam ser o local do crime uma plantação de abóboras-meninas.

publicado por fgs @ 01:13
na(s) fase(s) canto do microconto

Mon 27-02-2006

googlice

Caro desconhecido que o sr. Google enviou a este espaço ao fim da tarde de ontem em busca de um paneleiro filho da puta, saiba que o que procura se encontra com a maior das facilidades em qualquer esquina da vida. Para a próxima, basta-lhe abrir os olhos.

publicado por fgs @ 00:41
na(s) fase(s) da blogaria e da net

retratos do trabalho em salisbury, massachusetts, eua


Filmagens de New Wave Hookers #6.

publicado por fgs @ 00:38
na(s) fase(s) abruptamente no inverno passado

a minha secretária

uma pilha de cds
precariamente equilibrada entre a nostalgia
e o mau gosto,
uma lupa filatélica que repousa cega
nuns sobrescritos rasgados
com contas por pagar e extractos bancários,
meio maço de cigarros
acenando-me num convite irrecusável,
um cinzeiro totalmente beatificado,
um isqueiro verde ao lado de um marcador preto,
duas barras de chocolate branco,
alguns cartões de visita beges e castanhos,
uma impressora inanimada e
um monitor totalmente preenchido
por um processador de texto
onde se pode ler uma pilha de cds
precariamente equilibrada entre a nostalgia
e o mau gosto,
uma lupa filatélica que repousa cega
nuns sobrescritos rasgados
com contas por pagar e extractos bancários,
meio maço de cigarros
acenando-me num convite irrecusável,
um cinzeiro totalmente beatificado,
um isqueiro verde ao lado de um marcador preto,
duas barras de chocolate branco,
alguns cartões de visita beges e castanhos,
uma impressora inanimada e
um monitor totalmente preenchido
por um processador de texto
onde se pode ler

publicado por fgs @ 00:23
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta

Sun 26-02-2006

injustiças da vida

Desde criança que o seu sonho era ser assassino profissional, mas a única morte que concretizou foi a sua. Ainda adolescente, deu um tiro na cabeça e, como se não bastara, de borla. Um final trágico que ceifou uma carreira promissora.

publicado por fgs @ 18:51
na(s) fase(s) canto do microconto

eppur non si muove

publicado por fgs @ 18:34
na(s) fase(s) fotografismos

realizador onírico ou o trolha cinéfilo

Adorava cinema, mas, por lhe pesarem nas pálpebras os baldes de massa que carregava durante o dia, adormecia a meio, no lusco-fusco da sala, sonhando vários finais para as histórias que passavam no ecrã.
Acordava invariavelmente no fim das sessões com a reconfortante certeza de ter visto mais filmes do que todos os outros espectadores.

publicado por fgs @ 18:29
na(s) fase(s) canto do microconto

Fri 24-02-2006

dilema ornitológico

Não sei se fico ou se voo.

publicado por fgs @ 03:32
na(s) fase(s) que é que isto interessa?

Thu 23-02-2006

da sede

a saliva escorre-te dos lábios entreabertos
pelo canto esquerdo
(direito do meu ponto de vista)
num fio de desejo cristalino

lambo-a
chupo-a
trago-a duma vez e quanto mais sorvo
mais a tua boca fica prenhe
de rios e rios e rios
puros que irrompem sanguíneos
só para mim

bebo-os
numa excelsa fricção desenfreada
de mucosas
dessedentando-me até à eternidade
da vertigem

e nem dizer
cuspo ou baba
ou mesmo secreção aquosa levemente alcalina
em vez de saliva
tornaria menos sublime este momento

publicado por fgs @ 00:37
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta

retratos do trabalho em bagdade, iraque


Soldados americanos patrulhando as ruas.

publicado por fgs @ 00:27
na(s) fase(s) abruptamente no inverno passado

a passagem do tempo

Acabara de sair da consulta à cartomante e as infalíveis cartas garantiram-lhe que viveria ainda muitos anos. Ao atravessar a passagem de nível, uma fracção de segundo antes de ser trucidada pelo comboio das onze e vinte e dois, só teve tempo de pensar como o tempo passa depressa.

publicado por fgs @ 00:23
na(s) fase(s) canto do microconto

Wed 22-02-2006

40

vinte e cinco mais doze menos sete
menos treze mais cento e vinte e seis
mais dezoito mais mil e dezassete
a dividir por (nove menos seis)

mais duas vezes cento e dezassete
mais catorze ao quadrado menos seis
mais dois ao cubo vezes trinta e sete
menos setenta vezes dezasseis

mais co-seno de (pi vezes cem mil)
menos cem mais setenta sobre dois
mais logaritmo base dez de mil

menos a derivada de três xis
mais zero vezes cento e trinta e dois
mais um somado à conta que deus fez

(22 de Fevereiro de 2006)

publicado por fgs @ 02:41
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, sonetices

o espectáculo da bola

Era louca por futebol e não perdia uma transmissão em directo. Sentava-se nua em frente ao televisor com uma cerveja bem gelada na mão, gesticulando e vociferando, indiferente às dificuldades do dono do bar para aturar a clientela que aumentara exponencialmente desde que ela se mudara para aquele bairro.

publicado por fgs @ 02:36
na(s) fase(s) canto do microconto

Sun 19-02-2006

análise poética

Foi pedido a dois poetas, entrevistados na TV a propósito dos lançamentos dos seus mais recentes livros, que lessem algo de sua autoria. O primeiro disse um poema que tinha três vezes foder, cinco vezes puta – duas delas precedidas por filho da – e uma vez olho do cu. O segundo poeta disse onze vezes amor, seis vezes ternura e duas vezes esperança.
No dia seguinte, baseado na moderna ciência da audimetria, o director de programas decretou que, a partir desse momento, seriam proibidas entrevistas a palermas que versejassem sobre a merda do amor e idênticas lamechices.

publicado por fgs @ 16:35
na(s) fase(s) canto do microconto

crença

Se Cristo tivesse sido enforcado, os cristãos usariam forcas ao pescoço.

publicado por fgs @ 12:29
na(s) fase(s) penso rápido

Fri 17-02-2006

velocidade

pensamento. As outras palavras foram mais lentas do que o seu

publicado por fgs @ 15:46
na(s) fase(s) canto do microconto

tempos modernos

Movimenta vigorosamente os braços com ritmo e precisão chaplinianos, vezes sem conta, umas atrás das outras, toda a manhã. Todas as manhãs.
Pega na ferramenta pelo cabo.
Sacode-a violentamente.
Encosta-a à máquina.
Dá um ou dois toques na alavanca.
Um passo à esquerda.
Chega-se à outra máquina.
Ajusta o utensílio para cima.
Dá uma guinada brusca e seca para a direita.
Posiciona os recipientes.
Pressiona o botão para baixo.
Espera alguns segundos.
Pressiona o botão em sentido contrário.
E volta ao mesmo.
Só a pausa para o almoço quebrará aqueles movimentos firmes e resolutos, sublinhados por uma cadência de inconfundíveis sons metálicos.
Enquanto isso, vai acalentando a já ténue esperança de poder um dia concretizar o seu sonho de menino: trabalhar numa linha de montagem de auto-rádios. E é nesse sonho que se mantém acordado, dia após dia, enquanto tira cafés e mais cafés para despertar os outros.

publicado por fgs @ 15:39
na(s) fase(s) canto do microconto

Sat 11-02-2006

caricatura

Depois de ir a Maomé, a montanha pariu um rato de sacristia e foi um Deus nos acuda.

publicado por fgs @ 06:18
na(s) fase(s) que é que isto interessa?

Thu 09-02-2006

a gralha

O desenho mostrava um homem de gatas com tez escura, barba e turbante, nu da cintura para baixo. Por detrás dele, ajoelhado, um indivíduo de traços nitidamente ocidentais agarrava-o pelas ancas, sodomizando-o enquanto revirava os olhos. Em baixo, a legenda: «Oh Mao, método lá dentro é tão bom…»
Não houve quem compreendesse a referência ao ex-líder chinês, nem tão-pouco, a qual dos intervenientes deveria ser atribuída a enigmática expressão, pelo que ninguém passou cartão ao cartune.
Há poucos dias, em confidência a alguns amigos, o cartunista esclareceu que a frase era proferida pelo ocidental, que não havia alusão alguma a qualquer chinês e que fora a única vez na história em que a deslocação acidental duma vírgula evitara um choque de civilizações.

publicado por fgs @ 03:07
na(s) fase(s) canto do microconto

Wed 08-02-2006

um homem da cidade

Parou o carro na berma da estrada deserta e subiu ao cimo do monte. Sentou-se no manto de ervas polvilhado por pequenas clareiras ocres, a contemplar o azul celeste e o lago verde ao fundo. Sôfrego, bebeu a paisagem até se dissolver no suave calor da tarde e adormecer embalado pelos fiapos de nuvens que o espreitavam.
Não mais acordou. Morreu ali mesmo, impregnado da límpida sensação de que vivera tudo o que havia para viver, com o sorriso mais largo do mundo. Infinitamente feliz.

publicado por fgs @ 01:45
na(s) fase(s) canto do microconto

Sun 05-02-2006

epitáfio

Viver foi a sua aventura mais arriscada e não saiu vivo dela.

publicado por fgs @ 23:27
na(s) fase(s) canto do microconto

o meu é maior do que o teu

– Olha lá! Tu não tens vergonha desse telemóvel tão velhinho? Essa merda só faz e recebe chamadas, e pouco mais…
– Até parece que não me conheces, pá! Este é o utilitário, o que uso no dia-a-dia. O meu outro telemóvel é muito melhor do que o teu. É para aí de quinta geração, ou acima.

publicado por fgs @ 23:23
na(s) fase(s) diálogos (im)prováveis

Wed 01-02-2006

drogas duras

Quando o encontraram na minúscula mansarda transbordante de livros desamparados, encharcado em versos e hematomas, só uma antiga vizinha ainda recordava vagamente um homem simples e reservado, com a loucura inegavelmente estampada nos olhos.
Para a posteridade, apenas o olvido e o cabeçalho romântico na quarta página do jornal local: «Poeta promissor morre na flor da idade com uma overdose de palavras».

publicado por fgs @ 01:09
na(s) fase(s) canto do microconto

definições e morais

As suas fortes convicções morais e filosóficas apenas lhe permitiam apoiar um tipo de guerra: a guerra justa. Aquela em que só o inimigo morre… – Explicou.

publicado por fgs @ 00:56
na(s) fase(s) canto do microconto