metamorfases

Tue 31-01-2006

sôpa de lêteras

kuando escreveia; as palavaras, foramavam-se vagarózamente ao ritimo do perguiçozo dêdo indiquador que uzava pa Pisar. as teqlas para Cumúlo o çeu prosseçador de teisto não, diz punha: de corressão auto-matica

publicado por fgs @ 00:46
na(s) fase(s) canto do microconto

moluscidade

Ela vivia fechada na sua concha. No fundo, era uma mulher como as ostras.

publicado por fgs @ 00:33
na(s) fase(s) canto do microconto

Sat 28-01-2006

13 desaforismos

Na sequência do post anterior, pus-me para aqui a repensar provérbios. (As coisas em que um gajo gasta o tempo…)
Sintam-se à vontade para escavacar (ops!) mais alguns, ou remodelar os mesmos.

1. A brincar, a brincar… É que se vê quem é sério.
2. Entre marido e mulher só se metem bissexuais.
3. Cá se fazem, cá se apagam.
4. Quem tem telhados de vidro bronzeia-se em casa.
5. Grão a grão se forma um deserto.
6. Quem tem sorte ao jogo tem quantos amantes quiser.
7. Casa onde não há pão também não há bolos.
8. Em casa de ferreiro há muita ferrugem.
9. Com papas e bolos se apanham indigestões.
10. Quem o feio ama tem imaginação.
11. A cavalo dado não se olha à seringa.
12. Quem muito fala não é mudo.
13. Homem prevenido vale o que vale.

publicado por fgs @ 02:26
na(s) fase(s) que é que isto interessa?

Fri 27-01-2006

bom senso

Quem anda com os pés bem assentes no chão tem a cabeça no ar.

publicado por fgs @ 01:03
na(s) fase(s) penso rápido

obliquidade

Jamais deixara de ser um homem vertical. Mesmo deitado.

publicado por fgs @ 00:46
na(s) fase(s) canto do microconto

Thu 26-01-2006

contratempo

Estava sempre a inventariar o tempo. Tinha esse vício colado à pele desde que se lembrava. Tudo era cronometricamente contado e meticulosamente guardado na gaveta da memória reservada às coisas inúteis: os anos de solidão, os meses de angústia, as semanas de cansaço, os dias de insónia, as horas de raiva, os minutos de amor, os segundos de prazer, o décimo de segundo que levou a tomar a decisão, o centésimo em que hesitou e o milésimo que demorou a premir o gatilho.

publicado por fgs @ 00:17
na(s) fase(s) canto do microconto

Tue 24-01-2006

da omnipresença

Ligaram-lhe do banco a meio da manhã avisando-o de possível fraude com o seu cartão de crédito: haviam sido detectados diversos pagamentos simultâneos em várias partes do mundo.
Só então compreendeu que a internet o tinha bafejado com o dom da ubiquidade.

publicado por fgs @ 01:05
na(s) fase(s) canto do microconto

Thu 19-01-2006

:-)

- Sabes… Gosto do muito teu sorriso.
- A sério?!
- Sim. Mas só quando sorris.

publicado por fgs @ 23:51
na(s) fase(s) diálogos (im)prováveis

Wed 18-01-2006

dúvida líquida

Como é que estragar a mais pura das bebidas, transformando-a em vinho, pôde ter sido considerado milagre?

publicado por fgs @ 00:44
na(s) fase(s) penso rápido

o sonho comanda a vida

Só acordado se consegue concretizar um sonho.

publicado por fgs @ 00:37
na(s) fase(s) penso rápido

Tue 17-01-2006

fraquezas

Muitas vezes, ao reler o que escrevo, sinto ganas de apagar tudo… Infelizmente contenho-me.

publicado por fgs @ 01:04
na(s) fase(s) que é que isto interessa?

decência

O dia em que chegou à conclusão que sempre pagara por sexo foi aquele em que descobriu que era o mais pobre dos homens.

publicado por fgs @ 00:53
na(s) fase(s) canto do microconto

confessionário

Hoje confessei-me. Apesar de mal ver a cara do meu confessor, pareceu-me bem atento a tudo o que lhe dizia, acenando a cabeça num silêncio sensato a cada pecado que eu recordava. Falei da vizinha do sexto andar, das mentiras ao patrão, de mais umas dezenas de maldades, e senti-me mais leve.
Onze euros foi o custo da penitência, gorjeta incluída. Pareceu-me um preço justo para aliviar a consciência. Teria sido menos não fora o trânsito caótico do Saldanha ao Marquês. O taxista passou-me uma factura com o dobro do valor, agradeceu-me e ainda me desejou um bom dia.

publicado por fgs @ 00:38
na(s) fase(s) canto do microconto

eles não sabem nem sonham

Quem não sonha não tem pesadelos.

publicado por fgs @ 00:25
na(s) fase(s) penso rápido

Sat 14-01-2006

tão minúsculos que somos


Nebulosa de Orion
, Hubble, 11-01-2006

publicado por fgs @ 01:39
na(s) fase(s) fotografismos

Fri 13-01-2006

soneto espancado

ah não
ser poeta não é ser mais alto
não é amar-te assim perdidamente
não é um coração em sobressalto
gritando um desamor a toda a gente

não é ter a coragem de ir em frente
varando duras fragas de basalto
não é ambicionar ser a semente
da erva que germina em chão de asfalto

ser poeta é ser inteiro
e respirar
emaranhado em vícios
que não dormem
é ter dúvidas firmes
medo insano

é peidar-se e arrotar
e vomitar
quando as vísceras fervem
no abdómen
sim
ser poeta é apenas
ser humano

(20 de Novembro de 2004, um dia muito especial para alguém)

publicado por fgs @ 00:13
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, sonetices

Thu 12-01-2006

a copiar é que a gente se entende

A grande fonte de criatividade do nosso tempo chama-se copy/paste.

publicado por fgs @ 01:06
na(s) fase(s) penso rápido

fruta da época

Há ideias que merecem muito mais do que amadurecer. Merecem apodrecer.

publicado por fgs @ 00:58
na(s) fase(s) penso rápido

Wed 11-01-2006

a regressão

Não podia crer. Todos os seus conhecidos que experimentaram regressões tinham sido pessoas importantes em vidas passadas: faraós, escritores, príncipes, artistas, conquistadores… A ele tinha de lhe calhar ter sido pobre, analfabeto e, como se não bastara, paneleiro. Ainda por cima havia morrido na forca.
Enquanto pagava a conta ao assistente do Grande Mestre Tanji pensou em pedir uma segunda opinião, mas desistiu rapidamente da ideia. Esfregando o pescoço para tentar aliviar a maldita dor que, de vez em quando, o atormentava misteriosamente, abandonou o consultório convencendo-se de que as regressões não passam de aldrabices.

publicado por fgs @ 01:06
na(s) fase(s) canto do microconto

onde é que já ouvi isto?

O compositor andou tanto tempo com a sua música na cabeça que quando a escreveu sentiu-se plagiado.

publicado por fgs @ 00:58
na(s) fase(s) canto do microconto

Tue 10-01-2006

dúvida cósmica

Haverá mais do que a eternidade num milésimo de segundo?

publicado por fgs @ 00:37
na(s) fase(s) penso rápido

mãe há só uma

Nenhuma mãe quer como filho um filho da puta.

publicado por fgs @ 00:32
na(s) fase(s) penso rápido

se você disser que eu desafino, amor

– Claro que fiquei chateado. O sacana teve a lata de me dizer que eu estava desafinado. Ele há cada um… Tive de o mandar à merda, pois claro. Já ando nisto há dezassete anos e não recebo lições de ninguém. É muita estrada, muita festa, muita romaria às costas, tás a ver?… Então um gajo está ali no estúdio a gravar, concentradinho na melodia, na letra, no ritmo, na interpretação, na respiração, eu sei lá… É muita coisa junta, porra! E ainda tinha que cantar afinado?! Puta que o pariu!

publicado por fgs @ 00:26
na(s) fase(s) diálogos (im)prováveis

sabedoria

eu sei que há ignorância em toda a parte
que há muitos bichos que só comem fruta
também sei que há para aí filhos da puta
que juram ter um grande bacamarte

sei que entre a terra e júpiter está marte
e que atrás duma porta não se escuta
sei que o amor é uma força bruta
e que ninguém está livre de um enfarte

sei que depois da vida vem a morte
(mesmo para quem nasceu de cu para a lua)
sei que há quem acredite que tem sorte

sei que há hipocrisia no natal
mas sempre que te vejo linda nua
sei que tudo o que sei de nada vale

(30 de Dezembro de 2004)

publicado por fgs @ 00:19
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, sonetices

Mon 09-01-2006

diga lá outra vez

- Não acredito que tenhas feito uma coisa dessas, pá!
- Juro. Foi mesmo assim… Limpinho.
- És mesmo um gajo fodido…
- He he he… Sou, não sou?
- Pela frente não parece. Mas por trás vê-se logo…

publicado por fgs @ 01:17
na(s) fase(s) diálogos (im)prováveis

o enfermeiro

Lidava com os doentes com o maior dos à-vontades, independentemente da doença de que sofressem. Quantas vezes havia sido aspergido por vómitos fétidos, urina de odor insuportável, sangue de colorações suspeitas, sem o mínimo sinal de repulsa ou temor… Nada o perturbava e continuava firme e decidido no seu trabalho.
No dia em que lhe morreu o primeiro doente nas mãos saiu de rompante do quarto e voltou de luvas, touca e máscara, armado de todas as técnicas anti-sépticas que estudara. Interrogado pelos colegas sobre tão estranha atitude, balbuciou de olhos bem abertos:
– Não há doença que me assuste, mas a morte… A morte pega-se!

publicado por fgs @ 01:10
na(s) fase(s) canto do microconto

o espelho da alma


Eye, M. C. Escher, 1946

publicado por fgs @ 00:46
na(s) fase(s) fotografismos