sôpa de lêteras
kuando escreveia; as palavaras, foramavam-se vagarózamente ao ritimo do perguiçozo dêdo indiquador que uzava pa Pisar. as teqlas para Cumúlo o çeu prosseçador de teisto não, diz punha: de corressão auto-matica
moluscidade
Ela vivia fechada na sua concha. No fundo, era uma mulher como as ostras.
Sat 28-01-2006
13 desaforismos
Na sequência do post anterior, pus-me para aqui a repensar provérbios. (As coisas em que um gajo gasta o tempo…)
Sintam-se à vontade para escavacar (ops!) mais alguns, ou remodelar os mesmos.
1. A brincar, a brincar… É que se vê quem é sério.
2. Entre marido e mulher só se metem bissexuais.
3. Cá se fazem, cá se apagam.
4. Quem tem telhados de vidro bronzeia-se em casa.
5. Grão a grão se forma um deserto.
6. Quem tem sorte ao jogo tem quantos amantes quiser.
7. Casa onde não há pão também não há bolos.
8. Em casa de ferreiro há muita ferrugem.
9. Com papas e bolos se apanham indigestões.
10. Quem o feio ama tem imaginação.
11. A cavalo dado não se olha à seringa.
12. Quem muito fala não é mudo.
13. Homem prevenido vale o que vale.
Fri 27-01-2006
bom senso
Quem anda com os pés bem assentes no chão tem a cabeça no ar.
obliquidade
Jamais deixara de ser um homem vertical. Mesmo deitado.
Thu 26-01-2006
contratempo
Estava sempre a inventariar o tempo. Tinha esse vício colado à pele desde que se lembrava. Tudo era cronometricamente contado e meticulosamente guardado na gaveta da memória reservada às coisas inúteis: os anos de solidão, os meses de angústia, as semanas de cansaço, os dias de insónia, as horas de raiva, os minutos de amor, os segundos de prazer, o décimo de segundo que levou a tomar a decisão, o centésimo em que hesitou e o milésimo que demorou a premir o gatilho.
Tue 24-01-2006
da omnipresença
Ligaram-lhe do banco a meio da manhã avisando-o de possível fraude com o seu cartão de crédito: haviam sido detectados diversos pagamentos simultâneos em várias partes do mundo.
Só então compreendeu que a internet o tinha bafejado com o dom da ubiquidade.
Thu 19-01-2006
:-)
- Sabes… Gosto do muito teu sorriso.
- A sério?!
- Sim. Mas só quando sorris.
Wed 18-01-2006
dúvida líquida
Como é que estragar a mais pura das bebidas, transformando-a em vinho, pôde ter sido considerado milagre?
o sonho comanda a vida
Só acordado se consegue concretizar um sonho.
Tue 17-01-2006
fraquezas
Muitas vezes, ao reler o que escrevo, sinto ganas de apagar tudo… Infelizmente contenho-me.
decência
confessionário
Hoje confessei-me. Apesar de mal ver a cara do meu confessor, pareceu-me bem atento a tudo o que lhe dizia, acenando a cabeça num silêncio sensato a cada pecado que eu recordava. Falei da vizinha do sexto andar, das mentiras ao patrão, de mais umas dezenas de maldades, e senti-me mais leve.
Onze euros foi o custo da penitência, gorjeta incluída. Pareceu-me um preço justo para aliviar a consciência. Teria sido menos não fora o trânsito caótico do Saldanha ao Marquês. O taxista passou-me uma factura com o dobro do valor, agradeceu-me e ainda me desejou um bom dia.
eles não sabem nem sonham
Quem não sonha não tem pesadelos.
Sat 14-01-2006
tão minúsculos que somos

Nebulosa de Orion, Hubble, 11-01-2006
Fri 13-01-2006
soneto espancado
ah não
ser poeta não é ser mais alto
não é amar-te assim perdidamente
não é um coração em sobressalto
gritando um desamor a toda a gente
não é ter a coragem de ir em frente
varando duras fragas de basalto
não é ambicionar ser a semente
da erva que germina em chão de asfalto
ser poeta é ser inteiro
e respirar
emaranhado em vícios
que não dormem
é ter dúvidas firmes
medo insano
é peidar-se e arrotar
e vomitar
quando as vísceras fervem
no abdómen
sim
ser poeta é apenas
ser humano
(20 de Novembro de 2004, um dia muito especial para alguém)
Thu 12-01-2006
a copiar é que a gente se entende
A grande fonte de criatividade do nosso tempo chama-se copy/paste.
fruta da época
Há ideias que merecem muito mais do que amadurecer. Merecem apodrecer.
Wed 11-01-2006
a regressão
Não podia crer. Todos os seus conhecidos que experimentaram regressões tinham sido pessoas importantes em vidas passadas: faraós, escritores, príncipes, artistas, conquistadores… A ele tinha de lhe calhar ter sido pobre, analfabeto e, como se não bastara, paneleiro. Ainda por cima havia morrido na forca.
Enquanto pagava a conta ao assistente do Grande Mestre Tanji pensou em pedir uma segunda opinião, mas desistiu rapidamente da ideia. Esfregando o pescoço para tentar aliviar a maldita dor que, de vez em quando, o atormentava misteriosamente, abandonou o consultório convencendo-se de que as regressões não passam de aldrabices.
onde é que já ouvi isto?
O compositor andou tanto tempo com a sua música na cabeça que quando a escreveu sentiu-se plagiado.
Tue 10-01-2006
dúvida cósmica
Haverá mais do que a eternidade num milésimo de segundo?
mãe há só uma
Nenhuma mãe quer como filho um filho da puta.
se você disser que eu desafino, amor
– Claro que fiquei chateado. O sacana teve a lata de me dizer que eu estava desafinado. Ele há cada um… Tive de o mandar à merda, pois claro. Já ando nisto há dezassete anos e não recebo lições de ninguém. É muita estrada, muita festa, muita romaria às costas, tás a ver?… Então um gajo está ali no estúdio a gravar, concentradinho na melodia, na letra, no ritmo, na interpretação, na respiração, eu sei lá… É muita coisa junta, porra! E ainda tinha que cantar afinado?! Puta que o pariu!
sabedoria
eu sei que há ignorância em toda a parte
que há muitos bichos que só comem fruta
também sei que há para aí filhos da puta
que juram ter um grande bacamarte
sei que entre a terra e júpiter está marte
e que atrás duma porta não se escuta
sei que o amor é uma força bruta
e que ninguém está livre de um enfarte
sei que depois da vida vem a morte
(mesmo para quem nasceu de cu para a lua)
sei que há quem acredite que tem sorte
sei que há hipocrisia no natal
mas sempre que te vejo linda nua
sei que tudo o que sei de nada vale
(30 de Dezembro de 2004)
Mon 09-01-2006
diga lá outra vez
- Não acredito que tenhas feito uma coisa dessas, pá!
- Juro. Foi mesmo assim… Limpinho.
- És mesmo um gajo fodido…
- He he he… Sou, não sou?
- Pela frente não parece. Mas por trás vê-se logo…
o enfermeiro
Lidava com os doentes com o maior dos à-vontades, independentemente da doença de que sofressem. Quantas vezes havia sido aspergido por vómitos fétidos, urina de odor insuportável, sangue de colorações suspeitas, sem o mínimo sinal de repulsa ou temor… Nada o perturbava e continuava firme e decidido no seu trabalho.
No dia em que lhe morreu o primeiro doente nas mãos saiu de rompante do quarto e voltou de luvas, touca e máscara, armado de todas as técnicas anti-sépticas que estudara. Interrogado pelos colegas sobre tão estranha atitude, balbuciou de olhos bem abertos:
– Não há doença que me assuste, mas a morte… A morte pega-se!
o espelho da alma

Eye, M. C. Escher, 1946
