metamorfases

Sat 06-05-2006

historietas orgânicas III

21
As pálpebras bem abertas confirmavam que os olhos se fecharam para sempre.

22
A droga era tão boa que o rim apanhou a pedra da sua vida.

23
Os dedos eram os melhores amigos do nariz, mas só quando ninguém olhava.

24
«Não há cu que me aguente», apregoava o pénis todo inchado.

25
O tecido epitelial apareceu ornamentado com padrões geométricos de borbulhas.

26
As costas descobriram à sua custa que depois das palmadinhas vinham as facadas.

27
O pénis gabava-se de conhecer centenas de bocas. «É muita garganta», comentou a mão.

28
Ex-músico do famoso Duodeno, o estômago integra agora a popular Banda Gástrica.

29
Um grito a plenos pulmões morreu estrangulado na garganta.

30
A bexiga, farta da urina, mandou-a para o caralho.

(ver todas)

publicado por fgs @ 03:23
na(s) fase(s) historietas orgânicas

conversa no msn

– foda-se, tá-me mesmo a apetecer fumar. ó pá, tens aí um cigarro?
– sim
– passa aí
– toma… tens lume?
– tenho, obrigado. olha, chegou o luís
– já vi. vou adicioná-lo à conversa
– vou buscar mais uma cerveja. também querem?
– sim
– claro
– à nossa
– à nossa
– se quiserem posso abrir uma garrafa de vinho. tenho ali um esporão branco no frigorífico que está uma maravilha
– isso era bom. vou ali buscar uns carapaus fritos
– ok. vamos a isso

publicado por fgs @ 03:02
na(s) fase(s) diálogos (im)prováveis

à beira-rio

Um rio acordou a madrugada
que no meu peito andava há muito presa,
e num caudal de assombro e de braveza
arrebatou-me a alma enlameada.

Um rio transbordou a barricada
que me tornava forte na fraqueza,
desorientou as leis da Natureza
e eu deixei de ser água parada.

Agrilhoei-me à força dessas águas
que souberam lavar-me antigas mágoas
e acalentar-me enfim o corpo frio…

Mas é nessa corrente que me solto.
Sou, desde que te bebo, mar revolto,
e tu, que me sacias, o meu rio.

26 de Outubro de 2004

publicado por fgs @ 02:28
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, sonetices

interrogação afirmativa

– Hoje já disse que te amo?
– Agora já.

publicado por fgs @ 02:26
na(s) fase(s) diálogos (im)prováveis

Fri 28-04-2006

modernices

Era especialista em duas coisas: sexo online e teclar com uma só mão.

publicado por fgs @ 00:17
na(s) fase(s) canto do microconto

sete vidas

À oitava tentativa de suicídio, o gato duvidou da sabedoria popular.

publicado por fgs @ 00:12
na(s) fase(s) canto do microconto

contas de cabeça

No Google há 5.200.000 respostas para olho e 10.100.000 para olhos. O Google conhecerá 300.000 zarolhos ou terá 150.000 referências a outro tipo de olho?

publicado por fgs @ 00:08
na(s) fase(s) de lírios

Thu 27-04-2006

confie no alvo e acerte no tony


A minha caixa de correio tradicional decidiu mostrar à electrónica que também recebe imagens… invulgares, digamos assim.

publicado por fgs @ 23:11
na(s) fase(s) cromos procurando caderneta

Tue 25-04-2006

desabafo

Hoje, durante a madrugada, a RTP1 transmitiu um programa com canções de intervenção, que vi aos bochechos, integrado nas comemorações do 25 de Abril. Neste programa que, para já, passou a horas impróprias, descobri que “A formiga no carreiro” é uma canção da autoria de José Mário Branco (música e letra) e que “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” é um poema de Sérgio Godinho.
Se há coisa que me irrita é a constante falta de referência aos autores das canções que passam na televisão. A legenda limita-se ao título do tema e ao nome do cantor e, às vezes, pasme-se, à editora. Os autores são quase sempre esquecidos. Pois quando parece que a lacuna é corrigida, eis que demonstram um amadorismo e uma incompetência gritantes. E isto num programa em que participou, como intérprete, o presidente da Sociedade Portuguesas de Autores.

publicado por fgs @ 13:50
na(s) fase(s) que é que isto interessa?

Mon 24-04-2006

da omnipotência

Deus, chorando desalmadamente, confessou que já não aguenta o peso do seu próprio nome.

publicado por fgs @ 00:22
na(s) fase(s) canto do microconto

ser poeta é ser mais alto

Escreveu o verso mais comprido de sempre e pô-lo na vertical.

publicado por fgs @ 00:17
na(s) fase(s) canto do microconto

incoerências

Passear na baixa pensando em voz alta.

publicado por fgs @ 00:12
na(s) fase(s) de lírios

Sun 23-04-2006

historietas orgânicas II

11
Sempre que o pé marcava o compasso e os dedos estalavam, o coração sorria.

12
Depois dos espasmos musculares e dos gemidos desconexos, os pulmões prepararam-se para um banho de fumo.

13
Nas paredes do estômago só há quadros clínicos.

14
O dente jamais esqueceu o maxilar. Afinal, era lá que tinha as suas raízes.

15
O fígado devia estar bêbado quando pediu a mão à cirrose.

16
A tosse é os pulmões a discutirem com o ar.

17
Trocado pelo vibrador, o pénis mantinha-se vigorosamente em pé numa clara atitude de desafio. A verdade é que não se atrevia a virar-lhe as costas.

18
Os rins eram os maiores bandidos. Ninguém dava golpes como eles.

19
À mínima perturbação do sistema nervoso, os dentes tornavam-se os maiores inimigos das unhas.

20
A pele estendeu-se ao sol e ruboresceu de vaidade.

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publicado por fgs @ 16:19
na(s) fase(s) historietas orgânicas

Adiós Nonino

Astor Piazzolla é um dos homens da minha vida. Impulsionador do Novo Tango, foi um excepcional executante de bandneón e um brilhante compositor que experimentou diversas áreas musicais e inspirou inúmeros músicos.
Adiós Nonino é, sem dúvida, o seu mais famoso tema, composto aquando da morte de seu pai, Vicente “Nonino” Piazzolla em 1959, a partir de uma melodia escrita algum tempo antes. Vinte anos depois, Piazzola diria “Talvez eu estivesse rodeado de anjos. Foi a mais bela melodia que escrevi e não sei se alguma vez farei melhor.”
Durante muito tempo recusou qualquer tentativa de colar palavras à sua obra-prima, mas um dia, já nos anos oitenta, a cantora argentina Eladia Blásquez apresentou-lhe uma versão com um poema que havia escrito, e ele, comovido, concordou. De referir que Eladia renunciou a quaisquer direitos autorais para não retirar dividendos da obra que nascera do génio do Mestre.
É esta a versão que aqui apresento, cantada pela argentina Katie Viqueira, do álbum “El Outro Lado” de 1999, e o poema de Eladia pode ser lido aqui.

Piazzolla pedia “que se escute a minha obra em 2020. E em 3000 também…” Há dúvidas?

publicado por fgs @ 15:35
na(s) fase(s) compasso a passo

compassos

Inicio hoje, com uma regularidade que prevejo totalmente irregular, a apresentação de alguns temas musicais que, pelos mais variados motivos, muito me dizem. Procurarei fazer uma exposição breve sobre o tema e o(s) autor(es) sem entrar em pormenores supérfluos para leigos na matéria. Apresentarei, contudo, algumas hiperligações que julgue úteis para quem pretender saber um pouco mais.
Podem encontrar o tema (da semana? da quinzena? do mês?) na barra lateral, uma vez que não começará automaticamente. Quando mudar a música, acrescentarei a anterior ao post respectivo.

E a primeira é já… a seguir.

publicado por fgs @ 15:15
na(s) fase(s) compasso a passo

Sat 22-04-2006

historietas orgânicas I

1
A boca, cansada de dar à língua, mandou o pénis trabalhar.

2
«Modernices», murmurou uma orelha à outra quando soube do piercing no umbigo.

3
A perna exibia uma longa tatuagem de noite Versace.

4
Era inevitável que o pénis e a vagina se apaixonassem. Ambos existencialistas, partilhavam uma grande paixão pela língua.

5
«Quem anda à chuva molha-se», disseram os ossos à pele.

6
A retina, impressionada, viu as cataratas cristalinas.

7
Sempre que o coração sofria, o cotovelo tinha dores.

8
Nas noites de fim-de-semana a bexiga prepara-se psicologicamente para uma overdose de cerveja.

9
O cérebro comprara acções da clínica de oftalmologia. Os olhos viam E, mas ele informava €.

10
De vez em quando um dedo salvava as lágrimas do abismo.

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publicado por fgs @ 20:30
na(s) fase(s) historietas orgânicas

3

Uma folha cai
na brevidade da tarde.
Todo eu sou Outono.

publicado por fgs @ 20:20
na(s) fase(s) ai ai haiku

pico de audiência

– Sinceramente, se quer que lhe diga, estou-me a cagar para números!
– Mas os números são importantes. Fazem parte da nossa vida, homem…
– Talvez… Mas nunca gostei de números. No décimo ano até escolhi humanísticas por causa disso mesmo.
– Ora porra! Então, o que está aqui a fazer?
– Sei lá! Às vezes, um gajo faz coisas destas. Parvoíce, é o que é… Nem sei como me contive até agora.
– Só um momento… O telefone.
– …
– Hum, hum… Sim senhor… Certíssimo.
– …
– Ora, muito bem. O banco oferece-lhe três mil, seiscentos e trinta euros pela mala.
– Já disse que odeio números! Eu quero que o banco se foda mais a puta da mala.

publicado por fgs @ 20:17
na(s) fase(s) diálogos (im)prováveis

micro-devaneios

Historietas para ver com olhos de ler:

No Insónia
Estórias domésticas #1, #2, #3, #4, #5, #6, #7, #8, #9, #10, #11, #12, #13, #14, #15, #16, #17, #18, #19, #20, #21, #22, #23, #24, #25, #26, #27, #28, #29, #30, #31, #32, #33, #34, #35, #36, #37, #38, #39, #40, #41

No blog d’apontamentos
blog stories 1 a 5, 5 a 10, 11 a 15, 16 a 20

publicado por fgs @ 17:39
na(s) fase(s) da blogaria e da net, a voz dos outros

Tue 18-04-2006

pontamão

Sempre que se enervava trocava os pés pelas mãos. Felizmente, o nervoso durava pouco e desaparecia da mão para o pé.

publicado por fgs @ 01:33
na(s) fase(s) canto do microconto

Mon 17-04-2006

voo picado

«Sonhar dá-nos asas», filosofou a meio da fatídica queda.

publicado por fgs @ 23:07
na(s) fase(s) canto do microconto

vantagens de ser rico

Quando a Morte lhe bateu à porta mandou o mordomo dizer que não estava.

publicado por fgs @ 23:01
na(s) fase(s) canto do microconto

respirar é preciso

Diante das adversidades, a táctica mais asfixiante é a do avestruz.

publicado por fgs @ 22:26
na(s) fase(s) penso rápido

2

Abro uma gaveta
num armário de poeira.
Desato memórias.

publicado por fgs @ 22:00
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, ai ai haiku

Fri 14-04-2006

tese

para o Henrique e para o Luís Ene ;)

Quem se leva a sério é uma antítese de si próprio.

publicado por fgs @ 00:47
na(s) fase(s) penso rápido

câmara escura

A sombra é o lado negro da luz.

publicado por fgs @ 00:42
na(s) fase(s) penso rápido

retratos do trabalho em lisboa, portugal


Sessão parlamentar de 12 de Abril de 2006

publicado por fgs @ 00:37
na(s) fase(s) abruptamente no inverno passado

Wed 12-04-2006

torradeira

Ele queimou-se antes de saltar fora. Sexo tórrido entre um pão e uma brasa só podia mesmo acabar assim.

publicado por fgs @ 01:39
na(s) fase(s) canto do microconto

aviso afixado por fabricante de caixões

Temos livro de reclamações.

publicado por fgs @ 01:38
na(s) fase(s) de lírios

1

A página em branco
atemoriza a caneta.
Poema falhado.

publicado por fgs @ 01:37
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, ai ai haiku

Fri 07-04-2006

cinzeiro

Desenhava mapas de cinza e apagava os cigarros nos locais que sonhava visitar.

publicado por fgs @ 01:03
na(s) fase(s) canto do microconto

visita divina

Numa noite da semana passada, entre dois sonos, entreabri os olhos e dei de caras com Deus sentado aos pés da cama. Um sorriso meigo abria-lhe a face enrugada, e os longos cabelos brancos estendiam-se num manto reluzente sobre o edredão.
Para entabular conversa teci um tosco comentário de circunstância sobre o tempo e perguntei-lhe a idade.
– Ó rapaz… São tantos anos que já nem sei! – Respondeu displicentemente sem se aperceber da evidente negação do dom da omnisciência.
Cavaqueámos de seguida sobre assuntos mais triviais: as últimas tendências da moda para querubins, o pavor que o Espírito Santo tem da gripe das aves, as aparições da mãe do seu filho e o novo estilo de mobiliário celeste que, segundo o meu ilustre visitante, parece não favorecer a cadeira à direita da sua. Depois o sono reapoderou-se de mim e entre dois bocejos ainda ouvi a voz cava garantir-me que me tornaria em breve multimilionário, só porque eu sou «um tipo que merece isso e muito mais» (sic). Adormeci ao som duma ladainha numérica que, descobri no fim-de-semana seguinte, mais não era do que uma divina injecção subliminar da chave do euromilhões.
E é por isso que hoje sou mais rico do que nunca. Apesar do meu ateísmo e de não jogar por questões de princípio, Deus continua a acreditar em mim.

publicado por fgs @ 00:55
na(s) fase(s) canto do microconto

naufrágio

Já cavalguei o dorso das marés
mastigando intempéries uma a uma,
sofri tanto mar alto no convés
mas nunca vacilei em rota alguma.

Tantas viagens no ventre das galés
a circum-navegar terras de bruma,
que até Neptuno, exausto, a meus pés
sucumbiu, sufocado em negra escuma.

Sobrevivi aos perigos mil dos mares:
abismos e mostrengos seculares,
tempestades de sal, sonhos de areia…

Mas por mais que soubesse ler os astros
e me amarrasse aos mais robustos mastros,
naufraguei no teu canto de sereia.

(13 de Novembro de 2004)

publicado por fgs @ 00:42
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta, sonetices

problema de comunicação

O homem que assentou o último tijolo na Torre de Babel não conseguiu falar a língua que Deus lhe destinou porque era mudo. Conhecessem os outros a linguagem gestual e teriam acabado a obra.


(Escrito a duas cabeças. A primeira frase é minha, a última é do Luís)

publicado por fgs @ 00:34
na(s) fase(s) canto do microconto

Wed 05-04-2006

física onírica

Sonhou com buracos negros. Acordou, pegou numa pá e foi procurar antimatéria no quintal.

publicado por fgs @ 01:47
na(s) fase(s) canto do microconto

dilema moral

Quando descobriram a sua poligamia e o proibiram de ter mais do que uma mulher, deparou-se com o maior dilema da sua vida. Sempre fora moralmente contra o divórcio.

publicado por fgs @ 01:41
na(s) fase(s) canto do microconto

gritos

Escreveu todas as palavras que tinha ganas de gritar. As páginas ensurdeceram.

publicado por fgs @ 01:37
na(s) fase(s) canto do microconto

mãe

parto

publicado por fgs @ 01:32
na(s) fase(s) olha-me este armado em poeta

mensagem no telemóvel de um mouco

Tem muitas chamadas não entendidas.

publicado por fgs @ 01:31
na(s) fase(s) de lírios

Tue 04-04-2006

mais olhos que barriga

Devorou o livro, apesar da história sem sal.

publicado por fgs @ 12:39
na(s) fase(s) canto do microconto