historietas orgânicas III
21
As pálpebras bem abertas confirmavam que os olhos se fecharam para sempre.
22
A droga era tão boa que o rim apanhou a pedra da sua vida.
23
Os dedos eram os melhores amigos do nariz, mas só quando ninguém olhava.
24
«Não há cu que me aguente», apregoava o pénis todo inchado.
25
O tecido epitelial apareceu ornamentado com padrões geométricos de borbulhas.
26
As costas descobriram à sua custa que depois das palmadinhas vinham as facadas.
27
O pénis gabava-se de conhecer centenas de bocas. «É muita garganta», comentou a mão.
28
Ex-músico do famoso Duodeno, o estômago integra agora a popular Banda Gástrica.
29
Um grito a plenos pulmões morreu estrangulado na garganta.
30
A bexiga, farta da urina, mandou-a para o caralho.
conversa no msn
– foda-se, tá-me mesmo a apetecer fumar. ó pá, tens aí um cigarro?
– sim
– passa aí
– toma… tens lume?
– tenho, obrigado. olha, chegou o luís
– já vi. vou adicioná-lo à conversa
– vou buscar mais uma cerveja. também querem?
– sim
– claro
– à nossa
– à nossa
– se quiserem posso abrir uma garrafa de vinho. tenho ali um esporão branco no frigorífico que está uma maravilha
– isso era bom. vou ali buscar uns carapaus fritos
– ok. vamos a isso
à beira-rio
Um rio acordou a madrugada
que no meu peito andava há muito presa,
e num caudal de assombro e de braveza
arrebatou-me a alma enlameada.
Um rio transbordou a barricada
que me tornava forte na fraqueza,
desorientou as leis da Natureza
e eu deixei de ser água parada.
Agrilhoei-me à força dessas águas
que souberam lavar-me antigas mágoas
e acalentar-me enfim o corpo frio…
Mas é nessa corrente que me solto.
Sou, desde que te bebo, mar revolto,
e tu, que me sacias, o meu rio.
26 de Outubro de 2004
interrogação afirmativa
– Hoje já disse que te amo?
– Agora já.
Fri 28-04-2006
modernices
Era especialista em duas coisas: sexo online e teclar com uma só mão.
sete vidas
À oitava tentativa de suicídio, o gato duvidou da sabedoria popular.
contas de cabeça
No Google há 5.200.000 respostas para olho e 10.100.000 para olhos. O Google conhecerá 300.000 zarolhos ou terá 150.000 referências a outro tipo de olho?
Thu 27-04-2006
confie no alvo e acerte no tony

A minha caixa de correio tradicional decidiu mostrar à electrónica que também recebe imagens… invulgares, digamos assim.
Tue 25-04-2006
desabafo
Hoje, durante a madrugada, a RTP1 transmitiu um programa com canções de intervenção, que vi aos bochechos, integrado nas comemorações do 25 de Abril. Neste programa que, para já, passou a horas impróprias, descobri que “A formiga no carreiro” é uma canção da autoria de José Mário Branco (música e letra) e que “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” é um poema de Sérgio Godinho.
Se há coisa que me irrita é a constante falta de referência aos autores das canções que passam na televisão. A legenda limita-se ao título do tema e ao nome do cantor e, às vezes, pasme-se, à editora. Os autores são quase sempre esquecidos. Pois quando parece que a lacuna é corrigida, eis que demonstram um amadorismo e uma incompetência gritantes. E isto num programa em que participou, como intérprete, o presidente da Sociedade Portuguesas de Autores.
Mon 24-04-2006
da omnipotência
Deus, chorando desalmadamente, confessou que já não aguenta o peso do seu próprio nome.
ser poeta é ser mais alto
Escreveu o verso mais comprido de sempre e pô-lo na vertical.
incoerências
Passear na baixa pensando em voz alta.
Sun 23-04-2006
historietas orgânicas II
11
Sempre que o pé marcava o compasso e os dedos estalavam, o coração sorria.
12
Depois dos espasmos musculares e dos gemidos desconexos, os pulmões prepararam-se para um banho de fumo.
13
Nas paredes do estômago só há quadros clínicos.
14
O dente jamais esqueceu o maxilar. Afinal, era lá que tinha as suas raízes.
15
O fígado devia estar bêbado quando pediu a mão à cirrose.
16
A tosse é os pulmões a discutirem com o ar.
17
Trocado pelo vibrador, o pénis mantinha-se vigorosamente em pé numa clara atitude de desafio. A verdade é que não se atrevia a virar-lhe as costas.
18
Os rins eram os maiores bandidos. Ninguém dava golpes como eles.
19
À mínima perturbação do sistema nervoso, os dentes tornavam-se os maiores inimigos das unhas.
20
A pele estendeu-se ao sol e ruboresceu de vaidade.
Adiós Nonino
Astor Piazzolla é um dos homens da minha vida. Impulsionador do Novo Tango, foi um excepcional executante de bandneón e um brilhante compositor que experimentou diversas áreas musicais e inspirou inúmeros músicos.
Adiós Nonino é, sem dúvida, o seu mais famoso tema, composto aquando da morte de seu pai, Vicente “Nonino” Piazzolla em 1959, a partir de uma melodia escrita algum tempo antes. Vinte anos depois, Piazzola diria “Talvez eu estivesse rodeado de anjos. Foi a mais bela melodia que escrevi e não sei se alguma vez farei melhor.”
Durante muito tempo recusou qualquer tentativa de colar palavras à sua obra-prima, mas um dia, já nos anos oitenta, a cantora argentina Eladia Blásquez apresentou-lhe uma versão com um poema que havia escrito, e ele, comovido, concordou. De referir que Eladia renunciou a quaisquer direitos autorais para não retirar dividendos da obra que nascera do génio do Mestre.
É esta a versão que aqui apresento, cantada pela argentina Katie Viqueira, do álbum “El Outro Lado” de 1999, e o poema de Eladia pode ser lido aqui.
Piazzolla pedia “que se escute a minha obra em 2020. E em 3000 também…” Há dúvidas?
compassos
Inicio hoje, com uma regularidade que prevejo totalmente irregular, a apresentação de alguns temas musicais que, pelos mais variados motivos, muito me dizem. Procurarei fazer uma exposição breve sobre o tema e o(s) autor(es) sem entrar em pormenores supérfluos para leigos na matéria. Apresentarei, contudo, algumas hiperligações que julgue úteis para quem pretender saber um pouco mais.
Podem encontrar o tema (da semana? da quinzena? do mês?) na barra lateral, uma vez que não começará automaticamente. Quando mudar a música, acrescentarei a anterior ao post respectivo.
E a primeira é já… a seguir.
Sat 22-04-2006
historietas orgânicas I
1
A boca, cansada de dar à língua, mandou o pénis trabalhar.
2
«Modernices», murmurou uma orelha à outra quando soube do piercing no umbigo.
3
A perna exibia uma longa tatuagem de noite Versace.
4
Era inevitável que o pénis e a vagina se apaixonassem. Ambos existencialistas, partilhavam uma grande paixão pela língua.
5
«Quem anda à chuva molha-se», disseram os ossos à pele.
6
A retina, impressionada, viu as cataratas cristalinas.
7
Sempre que o coração sofria, o cotovelo tinha dores.
8
Nas noites de fim-de-semana a bexiga prepara-se psicologicamente para uma overdose de cerveja.
9
O cérebro comprara acções da clínica de oftalmologia. Os olhos viam E, mas ele informava €.
10
De vez em quando um dedo salvava as lágrimas do abismo.
3
Uma folha cai
na brevidade da tarde.
Todo eu sou Outono.
pico de audiência
– Sinceramente, se quer que lhe diga, estou-me a cagar para números!
– Mas os números são importantes. Fazem parte da nossa vida, homem…
– Talvez… Mas nunca gostei de números. No décimo ano até escolhi humanísticas por causa disso mesmo.
– Ora porra! Então, o que está aqui a fazer?
– Sei lá! Às vezes, um gajo faz coisas destas. Parvoíce, é o que é… Nem sei como me contive até agora.
– Só um momento… O telefone.
– …
– Hum, hum… Sim senhor… Certíssimo.
– …
– Ora, muito bem. O banco oferece-lhe três mil, seiscentos e trinta euros pela mala.
– Já disse que odeio números! Eu quero que o banco se foda mais a puta da mala.
micro-devaneios
Historietas para ver com olhos de ler:
No Insónia
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No blog d’apontamentos
blog stories 1 a 5, 5 a 10, 11 a 15, 16 a 20
Tue 18-04-2006
pontamão
Sempre que se enervava trocava os pés pelas mãos. Felizmente, o nervoso durava pouco e desaparecia da mão para o pé.
Mon 17-04-2006
voo picado
«Sonhar dá-nos asas», filosofou a meio da fatídica queda.
vantagens de ser rico
Quando a Morte lhe bateu à porta mandou o mordomo dizer que não estava.
respirar é preciso
Diante das adversidades, a táctica mais asfixiante é a do avestruz.
2
Abro uma gaveta
num armário de poeira.
Desato memórias.
Fri 14-04-2006
tese
câmara escura
A sombra é o lado negro da luz.
retratos do trabalho em lisboa, portugal

Sessão parlamentar de 12 de Abril de 2006
Wed 12-04-2006
torradeira
Ele queimou-se antes de saltar fora. Sexo tórrido entre um pão e uma brasa só podia mesmo acabar assim.
aviso afixado por fabricante de caixões
Temos livro de reclamações.
1
A página em branco
atemoriza a caneta.
Poema falhado.
Fri 07-04-2006
cinzeiro
Desenhava mapas de cinza e apagava os cigarros nos locais que sonhava visitar.
visita divina
Numa noite da semana passada, entre dois sonos, entreabri os olhos e dei de caras com Deus sentado aos pés da cama. Um sorriso meigo abria-lhe a face enrugada, e os longos cabelos brancos estendiam-se num manto reluzente sobre o edredão.
Para entabular conversa teci um tosco comentário de circunstância sobre o tempo e perguntei-lhe a idade.
– Ó rapaz… São tantos anos que já nem sei! – Respondeu displicentemente sem se aperceber da evidente negação do dom da omnisciência.
Cavaqueámos de seguida sobre assuntos mais triviais: as últimas tendências da moda para querubins, o pavor que o Espírito Santo tem da gripe das aves, as aparições da mãe do seu filho e o novo estilo de mobiliário celeste que, segundo o meu ilustre visitante, parece não favorecer a cadeira à direita da sua. Depois o sono reapoderou-se de mim e entre dois bocejos ainda ouvi a voz cava garantir-me que me tornaria em breve multimilionário, só porque eu sou «um tipo que merece isso e muito mais» (sic). Adormeci ao som duma ladainha numérica que, descobri no fim-de-semana seguinte, mais não era do que uma divina injecção subliminar da chave do euromilhões.
E é por isso que hoje sou mais rico do que nunca. Apesar do meu ateísmo e de não jogar por questões de princípio, Deus continua a acreditar em mim.
naufrágio
Já cavalguei o dorso das marés
mastigando intempéries uma a uma,
sofri tanto mar alto no convés
mas nunca vacilei em rota alguma.
Tantas viagens no ventre das galés
a circum-navegar terras de bruma,
que até Neptuno, exausto, a meus pés
sucumbiu, sufocado em negra escuma.
Sobrevivi aos perigos mil dos mares:
abismos e mostrengos seculares,
tempestades de sal, sonhos de areia…
Mas por mais que soubesse ler os astros
e me amarrasse aos mais robustos mastros,
naufraguei no teu canto de sereia.
(13 de Novembro de 2004)
problema de comunicação
O homem que assentou o último tijolo na Torre de Babel não conseguiu falar a língua que Deus lhe destinou porque era mudo. Conhecessem os outros a linguagem gestual e teriam acabado a obra.
(Escrito a duas cabeças. A primeira frase é minha, a última é do Luís)
Wed 05-04-2006
física onírica
Sonhou com buracos negros. Acordou, pegou numa pá e foi procurar antimatéria no quintal.
dilema moral
Quando descobriram a sua poligamia e o proibiram de ter mais do que uma mulher, deparou-se com o maior dilema da sua vida. Sempre fora moralmente contra o divórcio.
gritos
Escreveu todas as palavras que tinha ganas de gritar. As páginas ensurdeceram.
mãe
parto
mensagem no telemóvel de um mouco
Tem muitas chamadas não entendidas.
Tue 04-04-2006
mais olhos que barriga
Devorou o livro, apesar da história sem sal.
